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14th-Feb-2008 08:09 am - EPÍLOGO - Livro "A CAIXA DE MADREPEROLAS"

Voltando ao normal

 

Depois daquela noite conturbada e violenta, em que policiais, jornalistas e mais um monte de pessoas estranhas passaram pela casa das crianças, todos desejavam um amanhecer mais tranqüilo, porém, o dia seguinte prometia ser bem movimentado, mas não vou aqui ficar detalhando o que aconteceu depois que Dona Valquíria foi morta e todo o caso fora resolvido. 

Doutor Eduardo tomara todas as providências para que o caso fosse levado adiante e Vila Velha encheu-se de outras tantas pessoas estranhas ligadas ao departamento de exportações, polícia federal e outros órgãos relacionados ao caso.

Porém tudo voltara ao normal duas semanas depois, e a notícia que faltava para completar a felicidade das crianças veio numa tarde muito ensolarada, e lembre-se que nesta história estamos num inverno muito quente, bem diferente de qualquer outro que Vila velha tivera até então. Disseram que era um tal de efeito estufa. Um nome bem apropriado para o calor que transformara o inverno em verão antecipado. Daí, um dia como aquele não era nenhuma novidade.

Amanda e as crianças visitavam Marcos no hospital quando ao chegarem ao quarto, Marcos estava acordado. Você pode imaginar a alegria que todos ficaram. O médico estava impressionado e explicara que haveria sessões de fisioterapia, acompanhamentos médicos mais especializados e que com sorte, Marcos teria uma vida normal porque não havia nenhum dano neurológico.

Talvez fosse um milagre, ou talvez outro golpe de sorte, que nesta história você já leu que houveram alguns. 

Bom, como toda boa história, infelizmente há um fim. Muito embora o que contei tenha sido apenas uma das aventuras pelas quais as crianças tenham passado no transcorrer de suas vidas, garanto que esta sem dúvida fora uma das mais emocionantes e felizmente acabou bem.

Porém, as crianças não tiveram tanta sorte em outras vezes.

Mas isso, são outras histórias que um dia ainda pretendo contar a vocês!

                                                                FIM.

6th-Feb-2008 03:35 pm - CAP VI do Livro "A CAIXA DE MADREPEROLAS" - Parte Final

Neste meio tempo, um bombeiro aproximou-se de Doutor Eduardo trazendo uma caixa de aço toda chamuscada pelo fogo. Era a caixa com madrepérolas. As flores estavam derretidas e haviam soldado as duas metades do pingente que servia de chave no espaço em que as flores corriam na lateral da caixa. E o mais importante, estava aberta. Dona Valquíria tivera tempo para abrir a caixa e retirar tudo o que Marina colocara dentro.

Foi neste exato momento que Marina teve um daqueles flash´s. Seu plano estava dando certo, se tudo corresse como o previsto, Dona Valquíria estaria na casa de Marina em busca do armário de escaninhos de sua mãe. Era uma das armadilhas que Marina colocara dentro da caixa. 

Marina escrevera um papel com o local exato de onde poderia encontrar o gravador em sua casa, só que o gravador estava com Doutor Eduardo, e ninguém além deles sabia disso.

Marina levantou-se sentindo seu coração bater forte e disse:
- Dona Valquíria está lá em casa... E está procurando o gravador no seu quarto, mamãe! 
- Quê?! - todos disseram quase que em coro.
- Coloquei uma isca na caixa e Dona Valquíria deve ter "mordido". Coloquei um bilhete dizendo que o gravador está dentro dos escaninhos em seu armário, mãe. Não vê? Dona Valquíria está lá em casa procurando o gravador! - completou Marina e puxando o braço de Rafael saiu correndo.

Porém, a dor em seu tornozelo a fez parar. Marina não conseguia andar direito.
- Espera, vamos de carro! - disse Doutor Eduardo - Por favor, venham comigo - disse para os dois policiais que estavam ao seu lado.

Seguiram com faróis baixos até a casa de Marina e bastou virar a esquina e lá estava o corsa azul estacionado em frente à casa. Como as luzes estavam acesas, era certo de que Dona Valquíria estaria revirando tudo dentro da casa atrás dos escaninhos secretos recheados de todos os documentos que incriminariam a empresa que trabalhava.

Os policiais saíram do carro já segurando a arma, e fizeram um sinal para que todos aguardassem do lado de fora. Depois, os policiais entraram bem devagar na casa. É claro que ninguém ficou quieto do lado de fora. 

Houve barulho de coisas sendo quebradas e sombras que se projetavam na janela do quarto de Amanda. Era algo angustiante de se ver, porém um barulho de disparo seguido de outros dois, selaram o silêncio e os movimentos na casa.

Não vou entrar em detalhes, mas você sabe que ainda restava uma bala no revólver de Dona Valquíria, e ela reagira a um dos policiais que disparou e acabou por matá-la. Apesar de ser uma vilã, vê-la morta não foi muito legal para as crianças. 

Na realidade, eles nunca presenciaram nada parecido em toda a sua vida, e ver uma pessoa morta foi muito ruim mesmo sendo Dona Valquíria.

Porém, apesar de ser uma solução triste para o caso, tudo terminara de uma forma mais correta, visto que a empresa podia ser incriminada por destruir a reserva de Vila Velha, por ter contratado uma assassina com propósito de apagar os rastros e algumas pessoas envolvidas certamente seriam presas.

E o mais importante, Amanda estava viva e o pai de Marina e Rafael ficaria bom em breve, disso ninguém tinha dúvidas. Não seria uma recuperação rápida, mas todos estariam empenhados em ajudar na medida do possível.

Era só uma questão de tempo, e isso já não era mais um problema para nenhum deles.

continua...

30th-Jan-2008 03:55 pm - CAP VI do Livro "A CAIXA DE MADREPEROLAS" - Parte 11

Na fita, Gustavo falava que tinha pego Tio Bruno retirando documentos e que iria dar um jeito de sumir com ele no auge da discussão. Havia um longo trecho onde Gustavo contava sobre o que faziam, a remessa da madeira, a fachada falsa de mineradora e outras coisas mais relacionadas ao caso. Havia som de passos acelerados. Depois havia a voz de Dona Valquíria discutindo com Tio Bruno, o barulho de alguém caindo escada abaixo e gargalhadas. Estava tudo ali, cada parte da última conversa que Tio Bruno tivera antes de morrer.

Foi pura sorte que Tia Monica tivesse conseguido o gravador no terno de Tio Bruno quando este foi levado para o hospital. Era a prova mais do que verdadeira de que ele fora assassinado. Depois, com medo de ser agredida, Tia Monica entregara o gravador para Amanda sem saber ao certo o que havia na fita.

O final da fita era ainda mais esclarecedor. Marina gravara a conversa de Dona Valquíria falando das mortes e tudo o mais que você já sabe. Marina deixara o gravador ligado em seu bolso enquanto Dona Valquíria contava tudo dentro do galpão. Ela matara aquelas pessoas e provocara o acidente de seus pais.

Juntando esta fita com os documentos que já estavam com Doutor Eduardo, o caso seria de fácil solução. E havia uma testemunha muito importante, Amanda, que fora seqüestrada e ameaçada por Dona Valquíria durante os meses em que fora considerada morta. Dona Valquíria soubera de tudo depois de torturar Amanda. Soubera do gravador, da caixa com madrepérolas, dos documentos e tudo o mais. Amanda nunca escrevera bilhete algum para Dona Valquíria, e nunca entregara a segunda metade do colar com o pingente que abria a caixa. Como Amanda desconfiava de Dona Valquíria, ela havia entregue uma das partes do colar para Rafael antes de sair naquela madrugada. Porém, posso garantir que nem que Dona Valquíria a torturasse até quase a morte, Amanda diria que o colar estava com Rafael. Infelizmente, as crianças perceberam as pistas que Amanda deixara no seu quarto. Eram pistas para a polícia que nunca estivera em sua casa para averiguar nada. Não houvera sentido em ir averiguar nada na casa de Amanda se o que aconteceu "foi um acidente de carro". Porém, o destino dera uma reviravolta e tudo se resolveu da melhor forma possível.

Agora só restava saber onde estava Dona Valquíria.

continua....

25th-Jan-2008 07:35 am - CAP VI do Livro "A CAIXA DE MADREPEROLAS" - Parte 10

Depois Marina ficou um tempo conversando com Amanda, Rafael e Hugo que estavam muito preocupados. Muito embora tudo tivesse acabado, ninguém sabia o que acontecera com Dona Valquíria. Não encontraram seu corpo e nem o corsa. Ela dera um jeito de fugir. O que fora uma lástima.

Em certo momento, Marina olhou para o prédio e os bombeiros já haviam apagado o fogo, só restava escombros e muita fumaça. Doutor Eduardo estava ao lado de Tia Monica e ambos aproximaram-se de Marina conversando. Tia Monica dizia:
- Perdemos o embarque... - todos podiam sentir o peso daquelas palavras.
- Temos as guias, Monica. Podemos provar que havia um embarque aqui para ser despachado e ainda há outras provas do contrabando. - disse Doutor Eduardo.

Tanto Doutor Eduardo como Tia Monica olharam para Marina, e Tia Monica foi logo perguntando:
- Você está bem, querida? 
- Estou, tia. - respondeu Marina sentando-se na maca. - Tia... O que houve com Dona Valquíria? 

É claro que todos olhavam para Marina com interesse.
- Ninguém sabe ainda... Quando chegamos aqui, não havia nenhum rastro dela. Acreditamos que tenha escapado. Ela só queria a caixa... Você entregou a caixa .. não havia mais nada que ela quisesse... . - respondeu Tia Monica fazendo um carinho em Marina.
- Não entreguei a caixa. - disse Marina sorrindo.
- Não?! - perguntaram Rafael, Amanda, Tia Monica e Doutor Eduardo ao mesmo tempo.
- Não - respondeu Marina.

Foi Hugo quem completou:
- Marina abriu a caixa e a gente encheu com um monte de papéis.
- Como assim? - perguntou Tia Monica sem entender - você abriu a caixa? Mas como?
- Tia, é uma longa história... Fiz um molde e tirei o que Dona Valquíria queria de dentro da caixa. - respondeu Marina olhando para Amanda que sorria.
- E o que havia dentro da caixa? - perguntou Rafael interessado.
- Isto - respondeu Marina tirando um pequeno gravador do bolso.

Ninguém entendeu bem o que haveria de tão importante naquele gravador, somente Amanda, porém quando Doutor Eduardo rebobinou a fita e colocou para tocar, muita coisa foi esclarecida. Havia uma gravação de duas pessoas conversando. Uma das vozes era do Tio Bruno a outra um tal de Gustavo, e como Doutor Eduardo bem sabia, era o dono da empresa mineradora.

continua....

19th-Jan-2008 02:19 pm - CAP VI do Livro "A CAIXA DE MADREPEROLAS" - Parte 9


Amanda levantou-se e gritou:
- Não, Marina, não faça isso!
- Marina, joga a caixa pra mim! - gritou Rafael.
- Maldita! A caixa é minha! - rugiu Dona Valquíria e correu em direção a Marina.
- Vem pegar! - gritou Marina ignorando os gritos de sua mãe e Rafael.

Só Hugo não gritava, ele sabia que Marina esvaziara a caixa, lembra? Enquanto todos olhavam para o telhado, Hugo procurava algo para fazer uma ponte entre o muro e o telhado antes que este desabasse com a prima, porque Dona Valquíria podia cair junto com o telhado que Hugo sequer olharia para conferir se ela morrera.

Não precisou procurar muito mais, Hugo avistou o mesmo poste de antena que Marina vira do outro lado. Era perfeito, só que não conseguiria colocar o poste entre o telhado e o muro sem ajuda.

Neste espaço de tempo, Marina começou a subir mais alto no telhado e quando já estava quase no topo, prestes a descer para o outro lado, ela gritou:
- Você quer a caixa? Então vá pegá-la! - gritou e jogou a caixa do outro lado do telhado.
- Maldita! - gritou Dona Valquíria disparando mais dois tiros em direção a Marina que abaixou-se.

Depois disso, Dona Valquíria correu em direção ao lado do telhado que Marina jogara a caixa e Marina começou a descer pelo outro lado até chegar ao poste de antena que estava encostado no muro bem próximo ao telhado.

O telhado já estava quase todo tomado pelas chamas. O calor era insuportável e Marina já queimara as pernas e os braços em alguns pontos. O telhado começou a ranger e balançar e uma parte dele despencou deixando um grande vão bem no meio. Se Marina não saísse logo dali, em breve o telhado todo ruiria e ela cairia junto.

Vendo isso, Hugo gritou para Rafael:
- Rafael, me ajuda aqui!

Rafael prontamente saiu correndo em direção de Hugo. Lá, Hugo já empurrava o poste para que fosse rolando até a ponta do telhado onde Marina estava.

Assim que chegou, Rafael gritou para Marina:
- Agüenta firme, Marina. Vamos empurrar o poste para você. 

E foi o que fizeram. Hugo empurrava de um lado e Rafael puxava pelo outro. O poste era grande e pesado, mas os dois conseguiram encostá-lo bem próximo à Marina que estava encolhida junto a beirada do telhado.

Quando já o poste já estava suficientemente próximo do telhado, Rafael gritou:
- Vamos empurrar até que o poste caia aí perto... Assim que cair, você escorrega até o muro e pula aqui na carroça.

Marina olhou a carroça perto do muro, o poste encostado no muro e observou a distância que teria que pular para escorregar pelo poste. Ia ser uma dureza, mas era melhor do que cair com o telhado e morrer queimada.

Marina observou os dois empurrarem o poste até que este caiu e batendo na beirada do telhado ficou inclinado o suficiente para que Marina escorregasse devagar até o muro. 
- Escorrega pelo poste, Marina! - gritou Hugo.

Rafael e Hugo ficaram apoiando o poste para que não rolasse para fora do telhado enquanto Marina estivesse em cima.

Marina pegou a bolsa que trouxera e envolveu o poste. Seria uma única chance e teria que dar certo. Tomou coragem respirando fundo e enrolando as mãos nas alças da bolsa deu impulso. 

O tempo pareceu estar em câmera lenta. Marina escorregando pelo poste e batendo levemente no muro, uma explosão e o telhado desabando. Foi por uma fração de segundos e Marina não teria conseguido sair do telhado antes que este caísse.

Ao chegar no muro, Marina agarrou-se como pode e ouviu Rafael gritando:
- Solta! Solta as mãos! Você vai cair aqui neste monte de papéis! 

Foi o que Marina fez, e é claro que não foi como cair em um monte de algodão. Marina caiu de mal jeito torcendo o tornozelo o que doeu muito. Bateu ainda com a cabeça na lateral da carroça e acabou por desmaiar. Porém, foi uma queda suave em vista do desabamento do telhado e das chamas que consumiram o prédio em minutos.

Quando Marina finalmente acordou, havia pelo menos cinco carros particulares estacionados no terreno do galpão, dois carros de polícia, um caminhão bombeiro da prefeitura de Vila Velha e uma ambulância do hospital central. Ela custou um pouco a atinar com tudo o que estava acontecendo, porém ao ver o rosto de sua mãe sorrindo, tudo pelo qual passara havia desaparecido.

Sua mãe estava viva e nada no mundo seria mais importante para Marina.

continua....

16th-Jan-2008 10:31 am - CAP VI do Livro "A CAIXA DE MADREPEROLAS" - Parte 8


Marina viu seu irmão e não pode conter a emoção ao ver sua mãe. Sua mãe estava com Rafael! Sua mãe estava viva!

Foi apenas um segundo, mas o cérebro de Marina juntou tudo o que estava acontecendo. Eles tinham que sair dali, e rápido, pois o fogo já subia pela parede lateral e em breve entraria na sala.
- Saiam daqui! - gritou Marina - Leva a mamãe lá pra fora! Eu vou dar um jeito!
- Fuja, seu imbecil, fuja e vai pro colo da mamãezinha ! - gritou Dona Valquíria chegando ao segundo vão da escada.
- Sua maldita! - gritou Amanda - Não se atreva a tocar em minha filha!

Dona Valquíria deu uma gargalhada e atirou em direção a Rafael e Amanda.

Não havia outro jeito, Rafael teria que tentar salvar sua irmã pelo lado de fora. Porém, cadê o Hugo?
- Vou dar um jeito, Marina! Agüenta ai! - gritou Rafael e puxando Amanda saíram correndo.

Marina sentiu um medo como jamais sentira antes. Estava sozinha, encurralada e cercada de chamas por todos os lados. E o que é pior, próximo de uma assassina sem escrúpulos.

Marina respirou fundo e empurrou a janela que rangeu alto e despencou para fora de tão podre que estava. Isso foi um ponto a seu favor, porque se estivesse emperrada, certamente ela não conseguiria sair. Depois que a janela caiu, Marina pulou para o telhado. De onde estava, dava para ver as chamas saindo pelo telhado e sentir o forte cheiro de querosene. Marina teria que sair dali e bem rápido.

Ao sair do prédio, Rafael avistou Hugo arrastando uma carroça cheia de entulho, feno e papéis para bem próximo de um muro. A primeira coisa que fez foi ir ajudá-lo. Hugo estava tentando ajeitar um lugar para Marina pular. Se bem que isso seria uma loucura, eram quase sete metros de altura e cair em cima de uma superfície como aquela era quebrar pelo menos algumas costelas.
- Mãe, fica aqui ... - pediu Rafael e foi ajudar Hugo.

Amanda sentou-se no chão próximo ao muro pois estava muito cansada e doente. Foram muitos dias de cativeiro quase sem água e comida, torturado por uma megera que se vestira de vovózinha para enganar a todos.

Rafael aproximou-se de Hugo e disse:
- Hugo, Marina não pode pular aí dentro... Ela vai se quebrar toda... 
- Não achei outro jeito. Não há nada para dar ajudar ela descer do telhado. - respondeu Hugo desesperado.

Rafael olhou a sua volta e seus olhos bateram em um muro ao fundo coberto de Hera.
Eles tinha que arranjar um jeito de ligar o muro ao telhado.

Marina já conseguira correr pelo telhado deixando Dona Valquíria bem pra trás. Agora estava do outro lado e as chamas saíam pelas frestas em quase todos as direções. Tinha que arranjar um jeito de sair dali, e rápido porque senão o telhado cederia com o peso de Dona Valquíria junto com o seu.

Marina olhou para Rafael e Hugo empurrando uma carroça em direção a um muro recoberto de hera. Era isso! Tinha que arranjar um jeito de pular para o muro. Procurou por todo o telhado. E avistou Dona Valquíria saindo pela janela. Assim que Dona Valquíria viu Marina do outro lado gritou:
- Pare ai, sua peste! Quero esta caixa! - gritou mais alto e atirou na direção de Marina.

Marina contou, com este já eram três. Ainda havia três balas naquele revólver. Marina esperava que Dona Valquíria errasse os outros três também!

Marina continuou procurando por alguma coisa que servisse de ponte, até que avistou um poste de antena caído do outro lado, bem próximo ao muro, mas havia um porém, o teto estava em chamas! Marina teria que dar um pulo para o outro lado ou encarar Dona Valquíria novamente.

Cada neurônio do cérebro de Marina processou tudo o que sabia. Sempre havia uma opção e certamente ali também haveria uma. Marina olhou para a mãe sentada no chão junto ao muro e ao longe avistou luzes de farol se aproximando. Estavam chegando para dar o flagrante. Porém, tudo estava quase destruído. Somente o conteúdo da caixa ainda restava.

A caixa! Era isso! Marina tinha a caixa que Dona Valquíria achava que tinha a prova para incriminar a empresa!

Marina pegou a caixa e gritou para Dona Valquíria:
- A senhora quer a caixa? Olha aqui, ó! - gritou Marina e tirando a caixa da bolsa mostrou para Dona Valquíria.

Amanda levantou-se e gritou:

- Não, Marina, não faça isso!

continua...

13th-Jan-2008 06:23 pm - CAP VI do Livro "A CAIXA DE MADREPEROLAS" - Parte 7


Uma voz fraca aproximou-se da porta dizendo:
- Rafael, meu querido... - sua voz foi cortada por soluços - fuja meu querido, fuja... Dona Valquíra é uma assassina...
- Eu sei, mãe. Não se preocupe... - disse Rafael forçando a maçaneta da porta - vou tentar tirar a senhora daí...
- Está muito quente aqui.. - disse Amanda assustada.

Rafael procurou alguma coisa para bater na porta, já que estava trancada e não dava mais para voltar e pegar o chaveiro que ficara na sala em chamas. Em um dos cantos havia um machado daqueles bem grandes.

Rafael pegou o machado com grande esforço porque era muito pesado. Aproximou-se da porta e gritou:
- Mãe, se afasta da porta!

Rafael levantou o machado com toda a força que tinha e acertou a porta bem no meio. A porta rangeu ao golpe, mas não abriu. Rafael deu outra machadada mais forte e o machado atravessou a porta ficando preso no buraco.
- Fuja, meu querido... Você não vai conseguir... - gritou Amanda.

As chamas já estavam bem próximas e o calor era muito forte.

Rafael arrancou o machado do buraco, levantou mais uma vez e bateu com toda a força que ainda tinha. Desta vez, o buraco que ele fez com o machado era bem grande e já dava para passar a metade de seu corpo pela abertura.
- Mãe... Vou tentar mais outra machadada! - gritou Rafael tomando fôlego e levantando o machado mais alto.

O golpe foi certeiro no buraco e praticamente destruiu o meio da porta. Depois, Rafael pegou uma barra de ferro que estava caída junto a porta e foi golpeando o buraco até que a porta partiu-se ao meio e ele pode retirar o pedaço.
A primeira coisa que Rafael fez, foi abraçar a mãe. 

Tudo o que sentira naqueles meses, todo o abandono, todo o medo e toda a dúvida fora esquecido somente com aquele abraço. Rafael sentiu suas lágrimas correndo por seu rosto. Ver sua mãe viva era a recompensa por tudo aquilo que passara. 

Uma pequena explosão os trouxe para a realidade. Ainda estavam dentro de um galpão em chamas e tanto Marina quanto Hugo estavam em perigo.
- Venha, mãe. Temos que procurar a Marina e o Hugo. Dona Valquíria quer a caixa e está armada! - disse Rafael e puxando a mãe pelo braço, saíram correndo na direção dos gritos de Dona Valquíria.

Marina já alcançara a outra metade do vão, quase caíra por duas vezes, mas conseguira segurar-se a ponto de chegar aos últimos degraus da escadas ilesa. Tateou a bolsa que trazia para garantir que nada caíra e gritou:

- E ai, Dona Valquíria... Continuo com a caixa e a senhora está bem longe daqui... - disse Marina.

Dona Valquíria ficou irada. Deu um tiro em direção de Marina mas a bala passou bem longe da cabeça da menina. Pelo menos, Marina tinha certeza de que Dona Valquíria era muito ruim de pontaria. Este talvez fosse mais um ponto a seu favor. Restava agora subir até a janela e sair para o telhado. Lá, Marina teria que arranjar um jeito de descer do prédio que já estava quase todo em chamas.

A propósito, o fogo já chegava na porta da sala onde ela e Dona Valquíria estavam. Agora, não poderiam mas voltar por ali mesmo que quisessem teriam que sair pelo telhado.

Marina equilibrou-se novamente nos poucos degraus que ainda existiam e continuou escalando a escada até outro pequeno vão. Olhou para Dona Valquíria que estava atravessando o vão entre as duas metades da escada. O barulho de outra explosão fez a escada estremecer novamente e quase que Dona Valquíria cai.

Faltava apenas dois degraus para chegar a janela, quando Rafael gritou pela porta:

- Marina, segura ai...

Continua....



 
7th-Jan-2008 07:32 am - CAP VI do Livro "A CAIXA DE MADREPEROLAS" - Parte 6
 


Enquanto isso, Marina corria de Dona Valquíria até que chegou em uma outra sala onde não havia uma saída, somente uma janela que ficava acima de uma escada que havia desabado pela metade. Não havia outro lugar por onde sair, teve que encarar a escada.

Marina apoiou-se no corrimão destruído da escada e pisou no segundo degrau porque o primeiro já não existia. Subiu outros três pisando no lado que ainda existia de cada um. Virou-se e viu Dona Valquíria entrando na sala. Seu coração começou a bater mais forte ainda. Tinha que chegar na janela e tentar fugir pelo telhado. Torcia para que Hugo tivesse livrado Rafael das algemas e que eles conseguissem fugir. E ainda havia sua mãe que poderia estar em qualquer lugar naquele prédio.

Pensando nisso, Marina continuou escalando a escada apoiando-se nos poucos pedaços de corrimão que ainda existiam e pisando nos pedaços de degrau que ainda agüentavam seu peso.

Dona Valquíria parecia uma bruxa ao pé da escada. Gritava enlouquecida que queria a caixa ou atiraria em Marina. Quando Dona Valquíria pisou no segundo degrau a escada toda rangeu com o peso extra. Marina segurou-se mais ainda para não cair, pois já estava chegando ao último degrau que ainda existia antes do grande vão entre as duas partes da escadas que sobraram.

Já Hugo testava as últimas chaves do chaveiro. Rafael disse desesperado :
- Anda Hugo, anda... - pediu enquanto olhava as chamas aproximarem-se.

Hugo testou e uma delas abriu a algema. Os dois saíram correndo para fora da sala e as chamas já quase alcançavam as latas de querosene.
- Você sabe onde Tia Amanda está? - perguntou Hugo correndo atrás de Rafael.
- Acho que ela está numa sala lá trás - respondeu Rafael apontando para o lado esquerdo do salão onde estavam - Dona Valquíria costumava falar com alguém lá. Eu ouvi daqui.
- Então você vai tirar a tia de lá e eu vou atrás da Marina - pediu Hugo e saiu correndo em direção aos gritos de Dona Valquíria.

Rafael espantou-se com a atitude de Hugo, porém era o mais lógico a fazer em vista de que eram duas pessoas em perigo e eles eram dois disponíveis para tentar dar um jeito nas coisas.

Marina já chegara ao vão onde a escada estava totalmente demolida. Já era possível ver as chamas subindo pelas paredes ao fundo do prédio. Houve uma primeira explosão e Marina quase despencou da escada.
- Desça aqui, menina miserável! - gritava Dona Valquíria - Me dê a caixa!

Como ela não podia segurar a arma e se segurar na escada, isso deixava Marina com uma certa vantagem, afinal seria um alvo muito fácil de onde Dona Valquíria estava.

Em menos de um minuto, Hugo chegou ao pé da escada. Dona Valquíria sequer se deu conta de sua chegada até que ele gritou:
- Se segura ai, Marina. Eu vou derrubar essa megera!

Dona Valquíria virou-se para olhar para Hugo e quase caiu de onde estava. Depois, segurando-se mais forte continuou a subir a escada.

Marina tinha que dar um jeito de atravessar o vão sem cair de uma altura de quase seis metros. Olhou em volta e viu uma parte do corrimão pendente na lateral direita da escada. Era a única maneira de atravessar, teria que se pendurar no corrimão e tentar passar para o outro lado apoiando os pés nos tijolos da parede que ladeava a escada. 

Marina tomou fôlego, apoiou o pé na falha entre os tijolos mais próximos, tomou um impulso e segurou no corrimão. Foi necessário muito equilíbrio e força para segurar-se naquela posição enquanto atravessava o vão.

Marina sentiu-se presa em um varal de roupas de tanto que a estrutura toda balançava com o seu peso, somado ao de Dona Valquíria e de Hugo que começava a subir a escada.

Porém, em certo momento, Marina viu Hugo descer da escada e correr para o lado de fora da sala. Marina não entendeu bem o que o primo faria, porém, estava muito ocupada segurando-se para não despencar no vão.

Neste meio tempo, Rafael chegava a sala onde sua mãe estava presa. A primeira coisa que fez foi bater forte na porta e chamar pela mãe:
- Mãe? A senhora tá ai?

Continua...

1st-Jan-2008 10:56 am - CAP VI do Livro "A CAIXA DE MADREPEROLAS" - Parte 5
 


Dona Valquíria riu como nunca. Suas gargalhadas ecoaram na sala até que fazendo uma cara muito sinistra ela respondeu:
- Claro que sim, sua tola - respondeu e deu um sorriso bem maligno - precisava apagar todos os rastros, e ela é um trunfo a meu favor, não acha?
- Onde está minha mãe? - perguntou Marina irada.
- Aqui - respondeu Dona Valquíria bem cínica - aqui, crianças tolas. Pretendo por fogo em tudo, todos sabem que esta remessa está marcada. Uma pena, é verdade, porém se não encontrarem nada, não terão nada para provar. Quando chegarem aqui, só encontraram corpos queimados de crianças tolas e uma mulher desconhecida. Agora, Dê-me a caixa! - gritou Dona Valquíria.
- Quer a caixa, então venha pegá-la. - disse Marina e saiu correndo pela porta.

Dona Valquíria gritou:
- Volte aqui, sua peste de menina! - disse Dona Valquíria, pegou a arma e olhando para Rafael e Hugo, jogou o cigarro aceso na pilha de jornais.
- Morram! - gritou Dona Valquíria e saiu correndo atrás de Marina.

Rafael puxou Hugo para perto de si e disse:
- Pega o chaveiro que está na mesa!

Hugo custou um pouco a sair do transe que estava e precisou de um cutucão do Rafael para sair correndo e pegar o chaveiro sobre a mesa. O fogo já se alastrava pelos jornais e em poucos minutos estaria nas latas de querosene!

Hugo depois de pegar o molho de chaves, voltou para onde Rafael estava algemado e entregou o chaveiro para ele.

Rafael foi dizendo:
- Testa as chaves aqui - pediu Rafael mostrando a tranca da algema - não consigo sozinho!

Neste meio tempo, Marina correra pelo mesmo caminho por onde entrara com Hugo poucos minutos antes e desviava-se das pilhas de entulho espalhados. Logo atrás vinha Dona Valquíria gritando para que ela parasse ou iria atirar.

Marina tinha que ganhar distância e dar tempo para que Rafael e Hugo saíssem do galpão a salvos. 

Na sala o fogo já subia pelas paredes e nada do Hugo acertar qual chave abria as algemas que prendiam Rafael.
- Caramba! Tá muito quente! - comentou Hugo deixando o chaveiro cair no chão. 

Hugo abaixou-se para pegar o chaveiro e esqueceu quais chaves já tinha testado. Rafael procurou acalmar Hugo dizendo:
- Fica calmo, vai dar tempo. Agora tenta mais rápido e não deixa cair novamente.

Foi o que Hugo fez. Cada chave que colocava não fazia efeito para abrir as algemas e sua agonia era maior porque o fogo já consumira quase todos os jornais e já se alastrava pelas paredes.

Em pouco tempo, não teriam mais chance de fugir dali!

continua...

26th-Dec-2007 10:44 am - CAP VI do Livro "A CAIXA DE MADREPEROLAS" - Parte 4


- Vejo que vieram bem rápido, não é mesmo? - disse Dona Valquíria com um tom de voz muito arrogante.

A primeira coisa que Hugo viu foi o revólver que ela trazia na mão direita. Nunca em toda a sua vida tinha visto uma arma tão de perto. E como dava medo!

Marina custou a se acostumar com o novo visual de Dona Valquíria, afinal, ela não estava vestida de vovózinha de contos de fadas. Os cabelos pretos e longos contrastavam com a brancura da pele e as olheiras pronunciadas davam a Dona Valquíria um ar de assombração.
- Entrem! - ordenou e afastando-se um pouco, deixou que Marina e Hugo entrassem.

Ao entrarem, Marina viu o irmão algemado a um poste no fundo da sala. Estava pálido e quando viu Marina e Hugo entrarem, não pôde deixar de demonstrar um pouco de alívio seguido de desespero. Dona Valquíria conseguira o que queria. 

Marina olhou ao redor. Era um cômodo pequeno e tinha um forte cheiro de querosene. Havia diversas latas empilhadas em dois dos cantos e mais uma pilha de jornais velhos.

Dona Valquíria bateu a porta e virando-se perguntou:
- Trouxeram a caixa? 

Houve um momento em que o silêncio pesou um pouco na sala. Marina sentiu seu coração bater tão forte que chegava a doer um pouco. O que faria? Entregar a caixa e depois o que aconteceria?

Mesmo com dúvidas, Marina deu um suspiro bem fundo e respondeu:
- Trouxe. Mas como vou ter certeza de que a senhora vai deixar a gente sair depois?
- Aham, vejo que a menina é esperta e quer brincar comigo, não é? - respondeu com sarcasmo - Dê-me a caixa! - gritou Dona Valquíria.

É claro que as crianças se encolheram, principalmente porque Dona Valquíria apontou a arma bem para o rosto de Marina.

Marina precisou de uma dose extra de coragem para continuar a demostrar que estava impassível. 

Houve uma outra pausa e Marina continuou:
- O que há dentro da caixa que a senhora tanto quer?

Tanto Hugo quanto Rafael arregalaram os olhos. Dá para acreditar que Marina estava perguntando tal coisa para Dona Valquíria?

Dona Valquíria deu uma risada igualzinha aquelas que as bruxas dão em histórias infantis, sentou-se em uma cadeira próximo a porta, pegou um isqueiro no bolso e colocou um molho de chaves sobre a mesa, mas continuou com a arma na mão. Depois respondeu:
- Criança tola. Vejo que é mais curiosa do que imaginei. - fez uma pausa e continuou dizendo - Sua mãe roubou documentos importantes da empresa que trabalho, documentos que podem nos incriminar com relação ao envio de madeiras para fora do país.
- Mas não é uma mineradora? - perguntou Marina andando mais para próximo da porta.
- Sim. Porém cortar árvores da reserva é muito mais lucrativo, não é verdade. Você não tem noção dos preços que madeiras nobres e raras têm fora de nosso país. Muito dinheiro, minha querida - respondeu Dona Valquíria pegando um maço de cigarros e acendendo com o pequeno isqueiro prateado.

Ninguém nunca tinha visto Dona Valquíria fumar. Foi um choque para as crianças. Porém uma coisa não passara desapercebida por Marina, Dona Valquíria colocara a arma sobre a mesa enquanto estava acendendo o cigarro.
- E por que meus pais e meus tios foram mortos? - perguntou Marina e neste momento Hugo quase teve um treco.

Rafael que estivera calado até então gritou aflito:
- Marina! 

Dona Valquíria riu, ela parecia estar adorando aquilo tudo. Depois de rir mais um pouco, Dona Valquíria levantou-se e ficou andando pela sala. As três crianças trocaram olhares e se fosse possível conversar mentalmente, haveria uma verdadeira discussão entre eles.

Depois de uma pausa curta, Dona Valquíria respondeu:
- Foram perdas necessárias. Estavam xeretando onde não deviam. Já Bruno foi um acidente... - disse e olhou para Hugo que estava mais pálido do que o normal - peguei nosso querido contador tirando cópias de documentos da empresa e fuçando a contabilidade. No auge da discussão eu... Eu o empurrei e ele acabou caindo da escada.

Por incrível que pudesse parecer, havia um certo tom de pesar na voz de Dona Valquíria, e depois de uma pequena pausa, continuou dizendo:
- Depois descobri que Hugo e Norma também estavam metidos nisso. Tolos, muito tolos. Custou muito caro provocar aquele acidente...

Hugo precisou se recostar para não cair no chão, se bem que era preferível que ele estivesse em choque do que se resolvesse sair e agarrar Dona Valquíria pelo pescoço.

Rafael se esticou um pouco e puxou Hugo para próximo de si, enquanto Marina estava cada vez mais perto da porta.

Dona Valquíria deu uma longa tragada no cigarro e depois de assoprar a fumaça continuou dizendo:
- Amanda, ah, pobre Amanda. Tão ingênua, tão tola... - disse e depois deu uma gargalhada
- contou-me tantas coisas ... Afinal, eu era a vovózinha tão boa e atenciosa - disse imitando a voz de velhinha que sempre usara - contou-me tinha documentos importantes... - fez uma pausa e deu uma gargalhada.

Dona Valquíria deu outra tragada no cigarro e continuou dizendo:
- Foi muito difícil tirá-los da estrada. Seu pai era um excelente motorista, minha querida. Foi pura sorte ter encontrado aquela ribanceira no caminho. Depois do acidente... - parou de falar e deu uma gargalhada - passei muito tempo perguntando a sua mãe onde havia escondido as provas e ela sempre disse que era dentro da caixa. 

Marina gelou ao ouvir as últimas palavras. Sua mãe estava viva! Quase sem fôlego Marina perguntou:
- Minha.. Minha mãe está viva?

 continua...
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