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Fazia muito tempo que Dora estava sentada no pier vendo os pássaros sobrevoando a água, sabendo que o pier não era um lugar seguro. Porém, isso não era impedimento, mesmo sendo tão franzina a ponto de seus ossos quase que aparecerem em alguns pontos de seu corpo. Morena e pequena mas com um gênio capaz de assustar qualquer um que se atrevesse a aparecer por ali enquanto olhava os pássaros.
Foi quanto um ""ploc ploc "" junto a superfície do lago chamou a atenção de Dora. Com o coração aos pulos, levantou-se e observou as bolhinhas que se formavam na superfície. "ploc ploc Ploc" e segundos depois houve um "ploc ploc" tão alto que estremeceu o pier e Dora desapareceu.
Muito se dizia sobre o caso, mas a história em que incrivelmente todos acreditavam era de que um monstro comera Dora. E como você bem sabe, quem conta um conto sempre acaba por acrescentar alguma coisa. Nesta história, isso não fora nem um pouco diferente.
Ninguém sabe bem ao certo como começou, pelo que consta, um mendigo que vivia perto do pier dissera que existia um bicho no lago. Daí, muito pouco tempo depois o bicho passou a ser um monstro esquisito. Com o passar do tempo, o monstro esquisito virou horrendo, verde, gigante, com pelos no nariz e enormes olhos esbugalhados. Passando mais um tempo ainda, o monstro horrendo, verde, gigante, com pelos no nariz e enormes olhos esbugalhados pulara da água de repente, mas muito de repente mesmo, abocanhara a menina que sentara no pier. Com o passar de mais um tempo, quando já estava virando um dinossauro, as pessoas pararam de freqüentar o pier, depois disso nem no parque passavam. Fizeram várias buscas e nada encontraram. Nem a menina e nem o tal monstro.
Se existiu algum, dera no pé quando começou a confusão, deixando pra trás os pelos do nariz e os enormes olhos esbugalhados junto com a descrição maluca que criaram. Fizeram de tudo, fotos da menina foram espalhadas nos quatro cantos da cidade, nas caixas de leite e até nas sacolas de supermercado, porém isso em nada surtira efeito. Depois disso, a história fora um tanto esquecida, e quase não se falava mais da menina, do monstro horrendo, verde, gigante, com pelos no nariz e enormes olhos esbugalhados que pulara da água e sequer do pier. E as pessoas voltaram a freqüentar o parque.
O que ninguém sabia era que alguma coisa voltara para o fundo daquele lago depois de um certo tempo.
Foi quando uma menina muito franzina e pequena se sentou no pier e, ficou olhando os pássaros sobrevoando a superfície da água.
""ploc ploc ""
FIM
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| Pairava sobre a bruma do entorpecimento, sem saber bem onde estava. Via todo o movimento sem se mover. Via a vida estando no vácuo. Ecos de uma vida perdida no vazio do esquecimento. E bebia. Talvez não tivesse a verdadeira noção do quanto, porém sabia que havia bebido demais.
Lá estava ela novamente. E ele olhava aquela claridade miscigenada com as sombras da noite e o álcool em suas células. Seria uma visão? Uma visão que eternamente se repetia, e parecia perseguir suas noites de solidão?
Ela movia-se calmamente sobre a rua sem sequer tocar o chão. Pairava. Pairava há poucos metros dele. O que seria aquela mulher vestida tão lindamente? Alguma aparição da noite?
Ergueu-se com muita dificuldade e resolveu descobrir por si só, o que realmente seria aquilo à sua frente. Andou passos cambaleantes que ecoaram quebrando o silêncio na noite. Sentiu que seu coração batia mais forte, enquanto se aproximava daquela claridade indefinida. Seria uma mulher realmente? Sentia-se incapaz de definir o que estava vendo. Chamou. A aparição sequer deu-lhe atenção. Continuou andando, e andando sem tocar o chão. Apertou os passos e a cada passo seu, mais distante ficava daquela coisa. Começou a correr e correr. Cada vez mais rápido e mais cambaleante. E ela se afastava dele mais e mais. Deixou cair a garrafa que trazia agarrada junto ao corpo e caiu também. Estava exausto...
Quando tornou a abrir os olhos, lá estava ela, sentada junto ao gradil da passarela. Parecia observá-lo. Ou esperava por alguém? Ele não poderia saber, estava bêbado demais. Levantou-se, arrumou a roupa maltrapilha e dirigiu-se para ela. Aproximou-se. Olhou-a bem de perto. Não havia um rosto definido, apenas uma mistura de cores escuras emolduradas por um cabelo longo e preto. Sentiu medo. Em segundos, pareceu estar completamente sóbrio. Pode ouvir o que ela dizia. Por quê? Por que o quê? Perguntou-se. Você não sabe? Não, não sei. Então fique.
E foi sumindo. Sumindo. Ecoando na noite. E foi-se. Ele ficou ali parado olhando. Lembrou-se em um flash o que realmente se passara. Ele havia empurrado aquela linda mulher daquela passarela durante um delírio seu. Ele matara aquela mulher naquele lugar. Seu passado ecoava em sua mente. Talvez estivesse delirando, mas sentia-se sóbrio o suficiente para relembrar aquele amargo passado. Por que havia feito aquilo? Esta era a pergunta. Por quê? Ele não podia realmente saber. Naquele dia ele também estava bêbado demais. Fora um erro. Sentou-se no gradil. E ficou esperando. Esperando por nada. Não havia nada realmente para esperar.
Só restava ouvir os ecos de seus pensamentos.
Reggie Moonlight
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| O VAZIO DE NÃO TÊ-LA MAIS...
Era apenas um dia como qualquer outro em sua vida tão comum e rotineira. Apenas o vai e vem dos vagões de trens diferentes indo a diferentes lugares. Nada incomum realmente. Um silvo mais forte e o trem começava a parar na estação de uma cidade qualquer em um lugar qualquer, perdido no tempo e no espaço. Respirou fundo. Desceu do trem ainda em movimento. Olhou a sua volta. Se o mundo tinha um fim, com certeza era ali. Andou pela estreita rua empoeirada. Era como se tivesse retornado no tempo. Casas velhas e abandonadas. Ruas empoeiradas. Pessoas esquecidas... Ela ainda não a esquecera. Pegou o molho de chaves em seu bolso. Empurrou o pesado portão de ferro fundido e entrou. Tropeçou nos galhos que atravessavam o seu caminho e chegou à varanda tão empoeirada quanto a rua. Abriu a porta. O ranger ecoou aos quatro cantos. Virou-se repentinamente e observou que todos olhavam para sua direção. Deu com os ombros e entrou na casa. Os móveis já não existiam mais. A poeira e o esquecimento tomaram conta do lugar. Ainda da porta olhou para a escada. Sentiu-se arrebatado no tempo. Seus pensamentos eram desconexos... Atormentados pelo sentimento de perda. Onde estaria ela? Fechou os olhos... Sentou-se no primeiro degrau... Começou a reviver aquele momento de sua vida de que agora estava perdido. Caroline estava linda, radiante, maravilhosa como sempre. Vestido preto, muito justo, sem costas. Deixava transparecer as perfeitas curvas de seu corpo miúdo. Uma escultura viva. Aproximou-se dele. De onde estava, era possível perceber o quanto era linda. E era só dele. Seu perfume marcante a preencher todo o lugar. Ele abraçou-a como nunca jamais tivera feito. Sentia seu pulsar como um bomba dentro do peito e um calor consumia todo o seu ser. Beijou-a. Beijou-a mais intensamente. Seus corpos interagindo. Ela sentia que ele a queria. Deixou-se envolver. Ele empurrou-a gentilmente até a parede junto à janela. Suas mãos percorrendo seus corpos e o suave roçar das pernas dele nas dela. Beijou-a enlouquecidamente. Tomou-a nos braços e subiu aquelas mesmas escadas. Passos ecoando. Beijos envolvendo. Corpos se confundindo. Olhares se trocando. Uma porta se abrindo. Um grito. Tudo acontecera muito rápido para que pudesse ser entendido. Aquele homem era muito mais forte. Corpos se batendo. Segundos e Caroline estava caída junto ao mesmo primeiro degrau. Um silêncio sepulcral tomou conta de todo aquele lugar. Aquele homem pegou-a nos braços e foi-se. Uma porta batendo. Sangue no chão. Eram sombras perdidas no tempo. Tal qual ele próprio. Uma dor forte no peito o trouxe de volta ao presente. Olhou o chão. Não havia mais nada. Porém, ainda podia sentir o cheiro dela em suas mãos e o doce daquele beijo em sua boca. E o vazio de não tê-la mais. Levantou-se com dificuldade. Estava entorpecido pelas lembranças daquele amor perdido. E a certeza do nunca mais, tirava de si a vontade de viver. Caminhou passos arrastados pela sala. Uma dor forte no peito o fez encolher-se. Seguida de outra. Sentiu-se caindo no chão. Um ranger de porta se abrindo o trouxe à realidade. Era ela! Não conseguia se mover. Era como se as dobras do tempo, de alguma maneira, a tivessem trazido de volta para si. Não sentia mais a forte dor no peito.. Ela se aproximou em passos miúdos como ela própria. Seu olhar tinha o mesmo brilho de antes e seu perfume era o mesmo. Era ela. E viera só para ele. Um grande clarão iluminou a casa. Depois só o silêncio. Mais nada.
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Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac...
Aquele barulho parecia preencher todo o ambiente. Samuel não agüentava mais. Sua cabeça ia explodir. Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac... Olhou o digital sobre a cômoda. Cinco para meia noite. Meu Pai do Céu! Aquele relógio na sala, no andar de baixo, estava enloquecendo-o.
Levantou-se com toda a raiva que um ser humano é capaz de ter. Foi até armário. Procurou um martelo. Martelo não, uma marreta é melhor! Foi o patamar da escada, e olhou para o relógio. Parecia um tóten! Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac. Doom, Doom, Doom... Aquele barulho anunciava a meia noite! O som explodiu o silêncio. -Seu maldito! - esbravejou Samuel desceu a escada rapidamente. Quando chegou à sala, o relógio havia desaparecido! Olhou para o patamar da escada e lá estava ele! Doom, Doom, Doom... Samuel enloqueceu com aquilo. Subiu a escada, mas algo segurou seu pé, fazendo com que ele caísse. Ficou por um momento atônito. Finalmente, olhou para o relógio lá em cima. Doom, Doom, Doom... Em segundos, o relógio caía em sua direção. Iria matá-lo! - Socorro! - gritou Samuel caindo da cama no chão. Dspertou com o relógio de cabeceira sobre seu rosto. Era tudo um pesadelo. Com o coração aos pulos e a respiração acelerada, deitou-se novamente na cama. E, quando abriu os olhos de novo, Doom, Doom, Doom... Lá estava o relógio ao pé da cama. Minutos depois, caía em cima de Samuel. Seu sangue se espalhou pela parede....
Reggie MoonLight | |
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O céu estava coberto por nuvens escuras. O vento era cortante e fazia com que Flávio sentisse arrepios. Era inverno, sem dúvida, mas nunca fizera tanto frio assim. Talvez a falta de frio nos anos anteriores tivessem sido conjugados para dar o frio daquele inverno. E chovia fino. Aquela chuva que só servia para atrapalhar os planos de todo mundo. Chovia há pelo menos seis horas daquele jeito.
Flávio lutara muito para conseguir comprar aquela casa. Foram quase dez anos de muito trabalho e, finalmente, conseguira realizar seu sonho. Talvez fosse a casa mais linda de Petrópolis - e era sua.
Márcia chegaria à tarde, junto com a filha de seis anos. E sua família estaria novamente reunida. Desde que se casara, nunca separara um dia de sua mulher e filha.
Ainda havia coisas a serem guardadas e outras tantas para serem arrumadas, mas não havia pressa. Flávio estaria de férias pelos próximos trinta dias. Haveria tempo suficiente.
Pegou algumas caixas desmontadas e, resolveu levá-las para o sótão. Subiu as escadas para o segundo andar, puxou a corrente que dava para o alçapão e uma escada de correr em madeira desceu suavemente fazendo um barulho de ranger de metal. Precisaria colocar óleo nas engrenagens da escada. Subiu os sete degraus e entrou no sótão.
- Caramba, isto aqui precisa de uma grande limpeza - exclamou Flávio olhando em volta.
Havia muito pó em toda a parte, teias de aranha e várias caixas e baús muito antigos, com pilhas de jornais e revistas em cima. Flávio tentou acender a luz do sótão, mais estava queimada. Quando ia descer as escadas, sentiu uma brisa gelada próximo a seu pescoço.
- Que isso? - exclamou virando-se.
Talvez não fosse nada. Desceu as escadas, foi até a cozinha e pegou uma lâmpada. Pegou também sacos de lixo e uma vassoura, além de panos de chão. Voltou ao sótão. Trocou a lâmpada do bocal e acendeu-a depois. - Minha nossa senhora! Que imundice ! - disse e pôs-se a limpar.
Varreu, tirou as teias, limpou o pó, juntou os jornais e revistas velhos no saco de lixo. Porém não conseguiu limpar o vidro da pequena janela. Talvez fosse melhor trocá-lo. Haviam pintado o vidro de preto.
E havia um baú muito antigo, todo entalhado. O que haveria dentro? Flávio tentou abri-lo, mas parecia impossível, estava trancado. Desceu novamente à dispensa e pegou a caixa de ferramentas. Voltou ao sótão. No caminho encontrou Márcia e a filha.
- Nossa, você precisa de um banho. Basta eu não estar em casa que você nem banho toma! - exclamou Márcia dando um beijo em Flávio. - Estou limpando o sótão, dará um ótimo escritório. Daqui a pouco eu desço. Como vai a gostosinha do papai? - perguntou fazendo um sinal para Susy.
Susy fez uma careta e saiu correndo para a sala.
- O que ela tem? - perguntou Flávio. - Acordou mal humorada. O de sempre - respondeu Márcia. - Deixa eu continuar, falta pouco para arrumar - disse Flávio e subiu ao sótão.
Sentou-se num pequeno banco e pegou as ferramentas necessárias para abrir o baú, mas quando segurou a tampa, estava destrancada. Flávio ficou intrigado, porém resolveu não dar tanta atenção.
Dentro do baú havia peças de roupas antigas, fotografias, livros e vários outros objetos antigos. Havia também uma caixinha de jóias. Era uma caixa em madrepérola com pedrinhas imitando diamantes e esmeraldas. Muito linda. Flávio abriu a caixinha e dentro havia um medalhão do mesmo material da caixa. Na realidade, parecia coisa de criança. Incrivelmente, a caixa estava conservada em relação aos demais objetos. Estranho realmente.
Guardou as peças de volta no baú e levou a caixa para dar à Susy. Quando ia descer a escada, um vento forte atrás de si, fez com que Flávio perdesse o equilíbrio e caísse da escada. A caixinha caiu no chão do sótão.
Márcia apareceu rapidamente quando ouviu o barulho e ajudou Flávio a se levantar.
- Parece que há uma corrente de ar violenta aqui neste sótão. Perdi o equilíbrio com o susto que levei, maldição - disse Flávio assim que levantou-se e notou que havia se cortado no antebraço esquerdo.
Márcia fez um curativo e Flávio resolveu deixar a arrumação do sótão para o dia seguinte. ...................
Márcia adorava preparar o café da manhã, para ela, era um momento de maior união de uma família. Todos estavam descansados e era um bom horário para conversar.
Márcio e Flávio tomavam café quando Susy apareceu na varanda com o medalhão no pescoço. - Olá, papai, olha que lindo! - exclamou a menina assim que abraçou Flávio. - É, quem deu isso à você ? - perguntou intrigado Flávio. - Foi a Amanda, papai. - Amanda?! - exclamou Márcia. - É, a Amanda, minha amiga - respondeu Susy pegando um biscoito. - Quando ela deu isso à você, querida? - perguntou Flávio intrigado. - Ontem à noite. Ela veio e trouxe para mim o colar. - E o que mais ela fez? - perguntou Márcia. - Disse para não tirar o colar e não colocá-lo nunca no sol. - Tá certo, agora vai brincar e se esta Amanda aparecer, me chame - disse Flávio olhando para Márcia.
Flávio ficou olhando Susy sair. Ele tinha certeza de que a caixa ficara no sótão. Será que Susy subira as escadas? Aquilo seria muito perigoso. - O que você acha? - perguntou Márcia. - Eu encontrei aquela caixa com este medalhão no sótão. Acho que ela subiu lá quando eu caí ontem. Eu ia dar aquele medalhão para ela brincar, parece que ela adivinhou - disse Flávio. - Vou ficar de olho para que ela não suba novamente lá - disse Márcia. ...................
Flávio acabava de arrumar o sótão, quando Márcia apareceu com um café. Sentou-se ao lado de Flávio e começou a juntar algumas revistas. - Está claro aqui hoje, você trocou os vidros da janela? - perguntou olhando para a janela. - Sim, assim a luz do dia pode entrar - respondeu Flávio.
Neste momento, Susy subiu as escadas. Vinha com o medalhão no pescoço. Parou junto aos pais. Flávio e Márcia reviravam fotos de dentro de uma caixa. - Que interessante. Veja, esta família está vestida com roupas modernas para a época, não acha? E olha esta também - perguntou Márcia olhando duas fotos. - É mesmo, parecem estar neste sótão vendo alguma coisa - disse Flávio. - Deixa eu ver também - pediu Susy segurando uma das fotos.
Neste momento, uma sombra se configurava na parte mais escura do sótão. Todos olharam para aquela mulher com um olhar triste.
- É a Amanda, mamãe - disse Susy sorrindo.
Ao virar-se, o sol que entrava pela janela bateu no medalhão. Um grande clarão, como o de um flash, encheu de claridade aquele sótão.
No chão uma foto. Flávio e sua família estavam ali naquela foto. Não havia mais ninguém naquela casa. Só o silêncio. ..............
Na manhã do terceiro dia, vizinhos estranharam as luzes acesas no sótão e nenhum movimento na casa. Talvez as velhas histórias estivessem se repetindo.
Chamaram os bombeiros e a polícia. Não havia indícios de briga, ou assalto. No sótão apenas fotos espalhadas no chão. Talvez tivessem ido embora com muita pressa. Arrumaram as fotos na caixa e o medalhão na caixinha de madrepérola. Fecharam tudo dentro do baú. Chamaram os familiares. Depois trancaram a casa. Mais um crime insolucionável.
Amanda chorava no sótão. Trouxera mais uma família para aquela maldição.
Reggie Moonlight
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E o andar chegou. Cadê as luzes? Parecia filme de terror com seus passos ecoando na garagem. Havia mais passos que os seus ! Virou-se e não havia ninguém! Entrou no carro o mais rápido que pôde. Seu coração pulsava forte e sua respiração era ofegante. Virou a chave. Nada! O carro não ligava de jeito nenhum!
Começou a ficar com medo. Abriu a porta do carro, pôs o pé no chão, uma mão agarrou meu tornozelo! Carla gritou! Lutou muito para se livrar daquela mão que a puxava para baixo do carro. Finalmente escutou o elevador parando em seu andar. Estava livre! Carla saiu correndo. Era Raul. Ela foi logo dizendo: "Há um tarado embaixo de meu carro!"
Pacientemente o Raul foi até o carro, abaixou-se e olhou. Não havia nada. Entrou no carro, tentou ligar. É, não pega mesmo! Uma carona? Foram para o carro de Raul. Não pega! Tentou de novo e nada. Quando Raul colocou o pé no chão, uma mão o puxou para baixo do carro. Carla correu para o outro lado e puxou Raul com todas as forças que tinha. Conseguiu solta-lo!
Correram e àquela sombra sinistra parecia segui-los pelo chão. O elevador! Ao abrir a porta, uma senhora e uma menina. Segura o elevador ! Mas já havia fechado as portas. É melhor ficarmos aqui na luz...
O elevador chegou e os quatro desceram. Não tinham explicação para àquilo. Ainda tentaram convencer aquela senhora do perigo, bem como os frentistas, mas parecia conversa de maluco.
Por volta das dez horas, o elevador parou no quinto andar daquela garagem. Um casal muito animado desceu. O rapaz tentou ligar o carro duas vezes. Incrível, não pegava! Abriu a porta, pôs o pé no chão .... Reggie MoonLight | |
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Era uma noite comum. Nada especial. Era igual a todas as noites que passavam por ele sentado naquela esquina, dia após dia. Um eterno continuar sem final previsível. Uma rotina inquebrantável. Pelo menos até aquela noite.
Orlando dormia encostado, como sempre, entre folhas de papelão de uma caixa qualquer que fora jogada fora. Tal qual ele próprio. O sono teimava em vir e ir, numa mesma constância. Como tudo em sua vida. Estava acostumado com o vai e vem das pessoas naquela rua. Podia reconhecer passos e distinguí-los entre tantos outros. Porém, naquela noite em especial, um ruído diferente o trouxe a realidade do mundo vazio de seus sonhos. Eram passos apressados que ecoavam pela rua. Parecia ser uma mulher de sapatos altos. Talvez estivesse com medo da noite, como todas as outras. Havia alguém atrás dela. Passos também acelerados em um sincronismo abstrato, ecoando pelo silêncio da noite.
Orlando encolheu-se o mais que pôde e fingiu que dormia. Porém, seus ouvidos tudo percebiam. Até o respirar ofegante de quem corria atrás daquela indefesa mulher. Talvez fosse uma jovem, muito linda e solitária, que chegava atrasada de seu trabalho ou colégio. Talvez um papo mais prolongado com um amigo a tivesse feito atrasar e não pegar o ônibus mais cedo. A mulher se aproximava de Orlando. Ele podia sentir aquele respirar ofegante provocado pelo exercício forçado. Existia um espectro de medo que emanava daquela criatura indefesa, a mercê de seu algoz que a perseguia tão de perto. Orlando estava angustiado. Sentia seu coração apertado dentro do peito. Já havia se esquecido de como estava embriagado. Talvez o sentimento de incapacidade de defesa ou o medo do que não pudesse evitar. Seu desespero aumentava a medida que os passos chegavam. E os passos vinham, cada vez mais rápidos e próximos. Cada vez mais próximos de si. Seu coração pulava dentro do seu peito em um compasso sincronizado com o eco daqueles passos tão apressados pela rua. Do respirar ofegante. Eram muitos passos enchendo a noite. Seria forçado a ser testemunha de algo abissal prestes a acontecer. De repente, um grande estrondo explodiu em sua frente. Haviam jogado alguma coisa próximo a ele. Tinha tanto medo que mal podia abrir os olhos. Seria o corpo da jovem que corria apavorada pela rua? O silêncio encheu o espaço e o tempo, até que a única coisa que ouvia eram as batidas de seu prórpio coração.
- Ei, moço! - aquela voz era doce. Orlando abriu os olhos devagar e levantou um dos lados do papelão que o cobria. Seu medo foi absorvido pela linda face sorridente que olhava para ele. Era uma mulher pequena em um macacão que daria pelo menos duas dela dentro. Estava ofegante e trazia uma caneca na mão. - Quer uma sopa? - perguntou, esticando a caneca mais próxima ao pequeno caldeirão fumegante, onde um homem velho encheu-a com uma concha. - Vamos, tome. Temos muitos ainda para visitar. Deus te abençoe! Disse e se foi. Nos mesmos passos acelerados. Reggie MoonLight
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Aquele dia parecia sinistro. Algo no ar dava a um sensação de peso no respirar. Amélia chegou em casa muito cansada. O caminho do trabalho para casa havia sido muito estressante. Talvez pudesse dormir cedo naquele dia. Destrancou todas as fechaduras da porta - cerca de três - e, finalmente pôde entrar em seu apartamento recém-alugado. Tirou os sapatos. Entrou descalça na sala. Tirou o relógio e as jóias, e as colocou sobre a prateleira da estante. Por um instante, pôde vislumbrar um movimento no espelho. Acendeu as luzes da sala e viu aquela imagem de um homem muito bonito no espelho. Assustada olhou em volta. Não havia nínguem. Só a imagem no espelho! Aquele homem sorriu e começou a andar em direção à imagem de Amélia refletida no espelho. - Meu Deus! O que é isso?! - exclamou Amélia tentando se afastar daquele homem no espelho, o que parecia impossível, pois o espelho cobria toda a parede da sala. O homem, louríssimo e muito bonito, continuou andando bem devagar e abraçou a imagem de Amélia no espelho. Amélia gritou, e desmaiou. Quando acordou, ao levantar-se do chão, lá estava ele abraçado com ela. Atrás dela. Acariciando-a! Amélia correu para o interruptor e desligou as luzes. Começou a chorar. O que seria aquilo? Saiu correndo para o quarto e em todos os espelhos por onde passava, lá estava ele sorrindo. Parecia estar em toda a casa, e estava abraçado com ela. Amélia entrou no quarto, pegou todos os lençóis que pôde e começou a cobrir os espelhos, enquanto apagava as luzes da casa. Depois ligou para uma amiga. - Alô? - perguntou Lúcia ao atender. - Lúcia, é você? - disse Amélia. - Oi, querida. O que foi? Esqueceu alguma coisa no escritório? - disse Lúcia. - Eu... Eu não sei nem como contar... - disse Amélia chorando. - Você está me assustando. O que foi? - Entrei em casa e .... ví um homem no espelho... depois ele entrou em mim... - completou Amélia. - O quê?!! Ele atacou você? Bateu em você? - perguntou Lúcia espantada. - Ele é um espírito... - respondeu Amélia com a voz cortada por soluços. - Você está bem Amélia? Que história é essa de espírito? - Ele aparece nos espelhos, em todos os espelhos, Meu Deus! Não sei o que fazer. Estou no escuro. Ele é um homem bonito e está abraçando-me. Parece loucura, mas é verdade. Não sei o que fazer, estou desesperada! - explicou Amélia. - Calma, querida. Você quer ficar aqui em casa hoje? - Não, ele pode pegar você também - disse Amélia. - Bem, eu conheço uma vidente muito boa, que também joga carta. Marca uma hora com ela e escuta o que ela tem a dizer sobre isso. Você quer o número? - disse Lúcia depois de uma curta pausa. - Claro, faço qualquer coisa... - Certo. Um momento (barulho de folhas virando). Este é o número, o nome dela é Dona Marta. - Obrigada, querida. Vou marcar agora uma hora com ela, senão enlouqueço! - exclamou Amélia um pouco aliviada. - Calma. Não vá fazer nenhuma besteira. Lembre-se, se ele realmente está aí, está morto e você está viva. Ok? Qualquer coisa liga, eu estarei em casa. Um beijo. - Obrigado. Um beijo - despediu-se Amélia. Amélia imediatamente ligou para a vidente marcando uma hora logo pela manhã. ................ Aquela sala tinha um cheiro forte de môfo. Talvez fosse o carpete. Amélia não gostava de tapetes. Eles costumavam reter muita sujeira. E sujeira provoca muita doença. Mas era necessário que estivesse ali. Talvez aquela mulher pudesse resolver o problema com o espírito. - Srta. Amélia, por favor, entre - disse a vidente assim que abriu a porta. Na sala havia uma mesa redonda, coberta com uma toalha vermelha. A vidente era mal-vestida. E havia um espelho atrás da cadeira onde Amélia ia sentar. Amélia não queria ver o espelho. - Sente-se, por favor - pediu a vidente. Amélia sentou-se um pouco relutante, mas era necessário. A vidente começou a embaralhar as cartas, dividiu-as em três pequenos montes e as enfileirou sobre a mesa. Leu o primeiro monte, era o passado de Amélia. Incrível, ela acertou quase tudo! Amélia permanecia calada, apenas ouvindo. - Existe uma presença em seu presente. Algo há muito perdido, alguém em busca de outro alguém - disse a vidente olhando para as cartas e para o rosto de Amélia. - O que eu faço para me livrar dele? - perguntou Amélia. - Você deve seguir os seguintes passos. Primeiro, tome um banho com creolina, a lata toda, da cabeça aos pés... - foi interrompida por Amélia. - Creolina?! Isso vai me matar e não ao espírito ! - exclamou perplexa Amélia. - Você quer realmente que ele vá embora? - perguntou seriamente a vidente. - Claro, continue. Banho de creolina... - Depois, acenda uma vela de sete dias e fique sem dormir por 24 horas. Na noite do segundo dia, ele terá ido embora. São cento e cinquenta reais - completou a vidente.
Amélia pagou e saiu. Ainda pôde ver aquele homem rindo dela no espelho. Iria cumprir o que a vidente falara. Custasse o que custasse. Passou no supermercado, comprou a creolina da melhor marca e a vela. Depois passou em uma farmácia e comprou um estimulante, afinal, ficar vinte e quatro horas sem dormir seria uma barra. E finalmente foi para casa. Entrou em seu apartamento, seguindo todo o ritual que costumava fazer. As fechaduras, os sapatos, o relógio e as jóias. Porém não acendeu as luzes. E foi tomar banho. Foram quase seis horas de banho para usar toda a lata de creolina. Vestiu o roupão e foi para seu quarto. Aquelas vinte e quatro horas pareceram uma eternidade. Leu, estudou, usou o microcomputador, jogou videogame e assistiu televisão. Finalmente chegou o final daquele ritual macabro.
Saiu do quarto por volta das oito horas da noite e foi até a sala. Acendeu as luzes e tirou o lençol que cobria parte do espelho. Olhou, não viu aquele homem. Tirou a outra metade do lençol e lá estava ele, sentado no sofá rindo para ela.
Novamente começou a andar em direção à Amélia. E a abraçou. Amélia estava em choque, tentou correr até a varanda, e se apoiou no peitoril. Parou por um momento, tinha que acabar com aquilo. Subiu no peitoril, ainda pôde ver aquele homem olhando para ela no espelho. Soltou as mãos. Perdeu-se no vazio. Depois só o silêncio. Amélia estava morta. .............. A detetive responsável pelo caso chegou ao apartamento de Amélia por volta de nove horas da noite. Não havia muito o que fazer. Talvez aquela mulher estivesse louca. Havia indícios disso por toda a parte. Espelhos cobertos, creolina no corpo e no banheiro, vela e outras coisas mais. Era um caso de fácil solução. Dispensou os guardas e os peritos. Ficou sozinha. Olhou para o espelho. Havia um homem, muito bonito, sorria para ela....
Reggie MoonLight | |
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