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11th-Nov-2007 04:22 pm - CAP III do livro A CAIXA DE MADREPÉROLAS


O Segredo no Quarto

Como você pode ver, existe um certo mistério em tudo que contei até agora, não é mesmo? Colares que brilham no escuro, acidentes de carros pra lá de estranhos, pessoas desconhecidas que caíram de para-quedas nesta história e três crianças mais perdidas do que cego em tiroteio. É bem verdade que tudo isso pode apenas ser fruto da mais pura e verdadeira coincidência, porém eu digo, e repito, nada acontece por coincidência nesta história.

Existe sim uma quantidade bem grande de fatos estranhos e pretendo contar pra você.

Na manhã seguinte, que era um sábado meio nublado, quero dizer, um pouco nublado, porque meio nublado não existe. Bem, voltando a história, era um sábado nublado, e o telefone já tocara pelo menos umas três vezes antes que Tia Monica finalmente atendesse. 

Esqueci de dizer, na casa agora quem podia atender telefones era única e exclusivamente Tia Monica. Ninguém entendeu bem o por quê, porém Marina já havia comentado que isso aconteceu coincidentemente depois que Rafael contara que sua mãe tinha atendido um telefonema misterioso na noite do acidente.

Normalmente, era alguém querendo saber notícias do pai deles, ou ainda das crianças. Porém naquela manhã, a ligação era também misteriosa. Marina sempre dava um jeito de ficar por perto e tentar pegar o que acontecia, se bem que isso não era uma coisa muito bonita para se fazer, mas a situação não deixava outro jeito para se descobrir algo.

Tia Monica ficara branca que nem papel quando atendera o telefonema. É bem verdade que ela já parecia um fantasma, porém ela sempre tinha as bochechas avermelhadas, e durante o telefonema parecia que todo o sangue havia fugido de seu rosto. 

Marina prestara bem a atenção nas palavras “Galpão” e “sexta-feira”. Aquelas palavras estavam bem frisadas em seu cérebro e ali havia alguma coisa. Tia Monica praticamente não falara nada mais além destas palavras e depois olhando de forma aborrecida para Marina desligou o telefone e saiu da sala.

Não preciso nem dizer que a primeira coisa que Marina fez foi procurar Hugo e Rafael e contar para eles o que ouvira.

Rafael e Hugo estavam no quintal que ficava ao fundo da casa sentados à mesa de churrasco. Era uma mesa grande, com dois bancos presos dos lados onde podiam sentar pelo menos 15 pessoas bem confortavelmente, e ali os meninos costumavam ficar horas jogando futebol de botão e falando abobrinhas.

- Rafael... - disse Marina sentando no banco ao lado do irmão.
- Que foi? Que cara é essa? - perguntou Rafael se ajeitando sobre o tampo da mesa de maneira a olhar a irmã.
- Tia Monica atendeu uma ligação muito esquisita - respondeu Marina olhando para trás para se certificar que a tia não estava lá.
- Muito estranha? - perguntou Hugo ajeitando os botões nas posições certas para início de outra partida.
- É, ela falou sobre um galpão e depois de sexta-feira... Não pode ser coincidência, não acham? - contou Marina.
- Putz! Acho que você está procurando alguma coisa que não existe, Marina. - comentou Rafael. - O que pode haver de estranho nisso?
- Ora, ela ficou pálida quando falava no telefone... - completou Marina.
- Ha, tá brincando ... - comentou Hugo rindo - ela já parece um fantasma! 
- Tô falando sério. Parecia até que não estava gostando de nada do que ouvia. Falou pouco, mas ouvi direitinho cada uma das palavras. - frisou Marina.
- E daí? O que você acha disso? - perguntou Rafael interessado.
- Temos que descobrir o que vai acontecer no tal galpão na sexta-feira - respondeu Marina com aquele seu jeito de que tudo é óbvio novamente.
- Ah, claro. Só tem um detalhe bem pequeno, que sexta-feira? e qual galpão?, porque tem sexta-feira toda a semana - completou Hugo ainda rindo.
- Porém não há muitos galpões em Vila Velha - completou Rafael e todos olharam para ele.

Houve um minuto de silêncio em que Marina refletia sobre o que seu irmão havia dito. Realmente, em Vila Velha havia poucos galpões que servissem para um encontro secreto, ou algo parecido. 

- Você tem razão. Às vezes, papai levava a gente para visitar os galpões onde ele fazia entrega das mercadorias da empresa, lembra? - disse Marina e seu olhar ficou bem triste de repente.
- Pois é. Daí, existe um outro problema. Como é que vamos sair para olhar os tais galpões? Desde que Tia Monica chegou, a gente não vai nem no portão sem que ela esteja atrás! - argumentou Hugo.

E isso era a mais pura verdade. Tia Monica além de parecer um fantasma, se transformara em uma sombra das crianças. Onde elas iam, Tia Monica aparecia do nada. Era só olhar para trás e, veja só, lá estava ela olhando pela porta da cozinha as crianças conversando na mesa de churrasco.

Marina olhou para a tia e depois para Hugo que fez uma careta como quem diz: “Tá vendo”.
- Vou arranjar um jeito. Deixa comigo. - disse Marina decidida - Talvez a tal sexta-feira não esteja tão perto assim, daí, temos ainda algum tempo.

Depois disso voltou para dentro de casa. Era sábado, e pelas 5 horas da tarde iriam a missa como sempre faziam. Seria mais um momento para lembrar dos pais, o que doía muito. Porém, ainda havia algumas coisas a serem feitas para ajudar a Tia Monica antes de sair.

A tarde chegou. E todos saíram para a missa na igreja que ficava bem no centro da cidade, naquela praça que eu já falei para você lá no início de nossa história. Se bem que não falei muito da igreja, mas vou falar agora.

Era uma igreja que foi construída quando os primeiros moradores da cidade vieram, na realidade, foi a primeira coisa que começou a ser construída. Dizem que era uma homenagem do primeiro morador para Nossa Senhora da Conceição. Era a coisa mais linda de se ver. Paredes todas revestidas de estátuas com anjos e pássaros. Quase tudo fora pintado em tons de azul e na cor branca, além de detalhes entalhados e delineados com dourado. Havia missa todos os dias pela manhã e no final da tarde, e sempre os sinos enormes em bronze, soavam em todas as direções avisando que a missa iria começar. Além de tudo isso, havia um carrilhão que tocava “Ave Maria” exatamente ao meio-dia e às seis horas da noite em duas versões diferentes.

Tia Monica foi a primeira a entrar na igreja e as crianças logo atrás. Seus pais gostavam de se sentar mais ao fundo, porém Tia Monica ficava logo na primeira fila. Hugo dizia que ela gostava de aparecer para que todos soubessem que era mais cristã que qualquer um ali dentro.

Já fazia quase um mês do acidente com os pais das crianças e todos olhavam para eles com aquela cara de tristeza infinita e uma compaixão que, das outras vezes, fizera com que Marina começasse a chorar antes de sair. 

Porém, naquele dia, Marina pensava em outras coisas. Não que não sentisse falta de seus pais, porque isso seria impossível, mas havia acontecimentos que precisavam de uma resposta imediata e ela tinha certeza que estavam relacionados com o que havia acontecido com seus pais.

Por isso, tanto Marina, quanto Hugo e Rafael olhavam ao redor a busca de alguma pista, além do que Marina buscava uma maneira de dar uma saída e tentar procurar o tal galpão onde ia acontecer alguma coisa em uma sexta-feira. Deveria existir alguma, mas qual?

Foi na saída que a resposta saltou de um painel logo na porta da frente. Era isso! Marina segurou o braço de Rafael e apontou o quadro onde havia um monte de anúncios de excursão, passeios, aulas particulares, catequese e o que parecia ter saltado do painel: uma quermesse. Era isso! Uma quermesse onde eles poderiam dar uma fugida! 

- Quermesse?! - perguntou Hugo que vinha logo atrás.
- É uma festa da igreja para juntar dinheiro para caridade. Sempre acontece aqui em Vila Velha... - respondeu Marina e foi interrompida por Tia Monica.
- Hum... Vejo que se interessa por caridade, minha querida - comentou e aproximou-se para ler o pequeno cartaz.

Marina que não podia perder a oportunidade, foi logo dizendo:
- Adoro, Tia Monica! Todo ano, mamãe... - parou por um momento e olhou para a Tia.

Tia Monica abraçou a menina com carinho e disse:

- Se quiser, podemos participar, mas se isso faz com que vocês fiquem tristes, não precisaremos vir.
- Não, Tia... - Rafael apressou-se em responder - acho que seria bom a gente lembrar de nossos pais assim... Era muito bom estar aqui e ajudar na quermesse....

Hugo arregalou os olhos para Rafael, porém fez isso de modo que a tia não pudesse perceber. Ele não entendeu nada do que estava acontecendo.

Marina olhou para a tia e disse baixinho:
- Tia... Gostaria de vir participar da quermesse. Minha mãe sempre dizia que... Que devemos ajudar a quem precisa.

Nenhum deles acreditou quando a Tia Monica abriu um sorriso e concordou com aquilo. Muito embora as crianças sempre participassem da tal quermesse com a mãe, certamente desta vez seria por mais um outro motivo do que apenas fazer caridade. Eles teriam oportunidade de estarem sozinhos em algum momento e sondar por pistas, e fariam isso, longe de casa e longe da Tia Monica.

Era só questão de elaborar um plano muito bem feito, e vou acrescentar que para Marina isso não seria nenhum problema. 

A tarde se acabara, e o pouco sol que aparecera já havia se escondido há um tempão, quando eles retornaram para sua casa. A noite prometia ser um pouco fria, muito embora noites de outono em Vila Velha costumassem ser muito mais frias do que as últimas. E acrescento que, se fosse possível a comunicação por pensamentos, haveria um verdadeiro “falatório mental” entre as crianças que estavam no banco de trás do carro de Tia Monica.

Esqueci de outra mania de Tia Monica: qualquer criança só poderia andar no banco de trás. Até ai, tudo bem, se ela não considerasse que só deixavam de ser crianças depois dos 18 anos de idade. Imagine o que Hugo achava disso. Ele que sempre viajou no banco do carona de qualquer carro ficava invocado pra caramba!

Bem, voltando a história. Eles chegaram em casa por volta das sete e meia e como de costume, antes de jantar, todos tinham que tomar banho. Hugo e Rafael subiram as escadas correndo, e Marina subiu logo atrás, só não subiu correndo também para que a tia não achasse estranho.

Mal chegaram ao segundo andar, Rafael segurou o braço da irmã e quase que arrastou Hugo para o quarto dos pais. Só notou que fez isso quando fechou a porta e olhou para a cama de casal com dossel que ficava no centro exato do quarto.
- Puxa, é o quarto da mamãe... - comentou Marina olhando também para a cama.

Ninguém estivera ali depois do acidente, era possível notar a poeira que já se depositava sobre a penteadeira que fora de sua avó. 

Marina aproximou-se do móvel antigo e sentou-se no banco que era forrado de veludo na cor vinho. Era um móvel lindo, todo trabalhado com flores entalhadas na madeira que corriam por toda a lateral do móvel e davam a volta pelo espelho em forma oval bem no meio. Era de cristal puríssimo e refletia a pequena luz que ficava no abajur que ficara ligado desde a noite que seus pais haviam saído de madrugada.

Não preciso dizer que foi uma cena muito triste. As três crianças olhando para um móvel antigo recheado de lembranças. Marina olhava cada detalhe do móvel, dos perfumes de sua mãe... escova de cabelos... uma pequena caixa incrustada com madrepérolas sobre o móvel. 

Uma pequena caixa incrustada com madrepérolas?! Nunca ninguém vira aquela caixa antes!

Marina pegou a caixa e cada pedacinho de seu cérebro buscou alguma informação sobre aquele objeto. Não, com certeza ela jamais vira a caixa.

- Você já viu isso? - perguntou Marina intrigada e mostrou a caixa para Rafael que estava parado bem atrás dela e ao lado de Hugo.

Rafael olhou para a caixa e disse:
- Não, e acho que não devíamos estar mexendo nas coisas da mamãe...
- Quem garante que é da mamãe? Nunca vi antes... - insistiu Marina olhando para Rafael.
- O que você vai fazer? - perguntou Hugo.
- Não acho certo abrir... Mas eu vou... - disse Marina e tentou abrir a caixa.
- Não faz isso! - disse Rafael tomando a caixa das mãos de Marina.
- Por que não? Ela está morta, Rafael... E o que poderia haver dentro de tão horrível que fosse pior do que não ver mais a mamãe? - insistiu Marina pegando a caixa de volta.

Rafael não sabia responder. Ninguém saberia, não é mesmo? 

Depois de um momento bem curtinho, Marina tentou abrir a caixa novamente. A tampa não abria por nada. Forçou um pouco e depois deu uma sacudida. Alguma coisa dentro da caixa fazia um barulhinho de tilintar parecido com um sininho e havia mais alguma coisa que fazia um trec trec diferente. A caixa era de aço e estava trancada. O que fosse que houvesse ali, continuaria sendo segredo.

- Não abre... - disse Marina desistindo.
- Vai levá-la? - perguntou Hugo.
- Vou. Tentarei abrir depois. - disse Marina e levantou-se do banco com a caixa na mão.

Rafael não gostou daquilo, mas a curiosidade foi maior. Ele também queria saber que caixa era aquela que eles nunca tinham visto e que havia sido esquecida exatamente sobre a penteadeira da mãe que jamais estava bagunçada e que nunca tinha nada além de uma linda escova com formas antigas e dois vidros de perfume francês. 

Você deve estar se perguntando o que haveria dentro daquela caixa. E se você acha que vou contar agora, pode “ir tirando seu cavalinho da chuva” que não vou dizer nada ainda. Há muita coisa para contar.

O que posso dizer é que Marina andava pelo quarto mexendo em tudo. Rafael não queria estar ali futucando as coisas de seus pais, afinal, seu pai estava no hospital, com certeza ficaria bom logo e não iria gostar de saber que mexeram em suas coisas. Até que Marina virou-se para Rafael com aquela cara de quem faz uma descoberta fantástica. Ela fez um sinalzinho com o dedo indicador pedindo para ele se aproximar, e quando ele chegou perto ela apontou para o fundo do armário onde deveria existir uma sapateira.

Rafael e Hugo se aproximaram do armário e olharam para onde Marina apontava. Havia uma pequena abertura no fundo do armário como se fosse uma tampa de correr que não fora fechada direito.

Marina abaixou-se, forçou a tampa para cima que deslizou suavemente pelas laterais até deixar a mostra um pequeno armário de escaninhos recheados de papéis e fotografias. Rafael pegou um papel do escaninho mais próximo. Era uma conta de luz, olhou e devolveu para o mesmo lugar. Marina puxou um maço de outro onde havia fotos deles quando eram pequenos. Também devolveu. Depois, Marina pegou um maço de cartas e olhou. Os remetentes eram pessoas desconhecidas.

- Quem era Lorival Coelho? - perguntou Marina baixinho.
- Sei lá... Nunca ouvi falar... - respondeu Rafael olhando o remetente.
- E, Samuel da Costa Neto? Rodrigo Alves? - continuou Marina lendo os nomes.

Só havia um nome conhecido. Um só. Marina gelou quando leu:
- Monica Letícia de Verissimo... Será que é Tia Monica? - perguntou Marina sentindo seu coração bater forte.

Tanto Rafael quanto Hugo arregalaram os olhos. O que estaria fazendo uma carta da Tia Monica naquele maço de cartas?
- Abre - disse Hugo apreensivo.
- Não podemos fazer isso, é errado ler cartas dos outros.... - disse Marina. 

Agora ela concordava com Rafael, não deveriam estar ali futucando as coisas de seus pais. E se fosse alguma coisa que não devessem saber? Ou ao contrário? Se foram deixadas ali para alguém ver?

- Caramba? E agora? - insistiu Marina - Não acho certo abrirmos as cartas da mamãe...

Rafael pegou a carta da mão de Marina e notou que já estava aberta.
- Já está aberta... Vou ler ... - disse e pegou o conteúdo que havia dentro do envelope.

Se aquela era a Tia Monica, não haveria como saber naquele momento, mas com certeza Marina daria um jeito de descobrir depois.
- Lê logo, daqui há pouco Tia Monica sobe e pega a gente aqui... - disse Hugo.

A carta dizia:

Minha querida Amanda,

Sinto saudades, muitas saudades suas e de nossas tardes com as crianças. Você bem sabe que as coisas estão se complicando, e que eles já devem desconfiar de tudo. Bruno já havia avisado de que em breve estariam atrás de nós, porém não acreditei logo. Você viu no que deu, meu amado se foi e agora Hugo e Norma também...

Não consigo manter mais segredo... Não posso mais agüentar isso.

Ligue-me assim que puder, avisa ao Marcos que precisamos conversar e resolver o que iremos fazer.

Um beijo no coração

Monica.”


Depois que terminaram de ler a carta, tanto Rafael quanto Marina olharam para Hugo. Ele parecia que iria ter um treco e ia ser duro de segurar! A cor havia sumido do rosto de Hugo e ele tinha os olhos arregalados. A boca estava entreaberta e parecia que alguma palavra iria sair porém ficou presa na garganta.

Marina dobrou a carta e rapidamente devolveu para o envelope. Colocou o envelope de volta junto com as outras cartas no escaninho de onde havia tirado. Depois, mais rápido ainda, puxou a porta de correr fechando os escaninhos. O fundo do guarda-roupa ficou igualzinho como ela se lembrava antes.

Marina deu uma olhada ao redor para ter certeza de que estava tudo no lugar, pegou a caixa com madrepérolas e puxando o braço de Rafael disse baixinho:
- Vamos...

Só que neste exato momento, a voz de Tia Monica ecoou pelo corredor. Não preciso nem dizer que eles gelaram da cabeça aos pés! Hugo parecia que não estava ali e foi necessário um cutucão de Rafael para trazê-lo de volta a realidade. 

Marina e Rafael saíram pela porta do quarto dos pais e cada um entrou em seu quarto. Rafael correu para o banheiro e ligou o chuveiro e Marina arrancou as roupas de qualquer maneira e se enrolou em uma toalha. 

Porém, cadê o Hugo? Já é óbvio demais para você que ele ficou “dentro” do quarto. Como disse antes, Hugo era um verdadeiro para-raio para encrencas, e neste dia certamente estaria ligado na potência máxima.
- Meninos! Já tomaram este banho? - perguntou Tia Monica chegando ao topo da escada.

Marina apareceu na porta e respondeu:
- Já tô indo, Tia. Tô acabando já...

Rafael também apareceu na porta já com os cabelos molhados e olhou para a Tia Monica que olhava para a porta entreaberta do quarto de onde eles haviam acabado de sair.

Caramba! Pensou Rafael, o Hugo estava lá dentro! 

Tudo pareceu estar em câmera lenta. Tia Monica olhando para Marina e Rafael com aquela cara de quem não está gostando, depois pegando a maçaneta da porta e abrindo a porta bem devagar. Se fosse possível escutar os corações como naquela máquina do hospital que eu falei que era ligada ao pai deles, haveria uma bateria naquele corredor porque os corações de Rafael e Marina batiam tão alto, tão alto que eles eram capazes de explodir de tanto bater!

Não havia saída, Tia Monica ia pegar o Hugo “dentro” do quarto.

Tia Monica entrou calmamente no quarto depois de dar uma última olhada para Marina.

O que se seguiu foi muito estranho. Tia Monica ficou parada na porta olhando para o Hugo que ainda olhava para a penteadeira. Tia Monica olhou para a penteadeira, depois para Hugo e perguntou:
- Posso saber o que o senhor faz aqui dentro? - o tom da voz não era nada agradável.

Como já disse a você, Hugo estava congelado. Em choque, não sei bem, porém ele apenas olhou para a Tia Monica e começou a chorar sem parar.

A Tia Monica levou um baita susto! Ninguém jamais vira Hugo daquele jeito! Chorando?! Não seria possível. E certamente, ele jamais admitiria que acontecera para quem quer que fosse.

Porém, talvez aquela fosse a melhor coisa que já aconteceu, porque Tia Monica ficou toda mole depois. Correu e abraçou o menino como que para fazê-lo parar.

Marina e Rafael ficaram na porta do quarto olhando a cena sem acreditar na sorte, muito embora Hugo chorava por um motivo muito óbvio. 

O Hugo e a Norma citados na carta eram seus pais, e saber que acontecera alguma coisa com eles por causa de um segredo, fora demais para ele. 


continua...
8th-Nov-2007 10:36 am - CAP II do livro A CAIXA DE MADREPÉROLAS





O Pingente do Colar

Na manhã seguinte, quando tocaram a campainha, Marina já estava acordada desde cedo e arrumava a mesa para o café, já que sua mãe não estava em casa. Sua mãe sempre dizia que era tarefa para meninas, e ela adorava fazer isso desde pequena. Muito embora Marina tenha estranhado bastante o fato de seus pais não estarem quando Rafael contara sobre a saída deles na madrugada. Não era comum que saíssem assim. E Marina também teve um pressentimento ruim ao ouvir a campainha logo cedo.

Hugo abriu a porta e tanto ele, quando Rafael e Marina ficaram ali olhando para os homens que estavam parados junto com Dona Valquíria, a vizinha da casa do lado que sempre aparecia quando precisava-se dela. Ela parecia uma vovózinha de conto de fadas. Seus cabelos grisalhos eram sempre bem arrumados e presos em um coque que ficava dentro de uma redezinha igual aquela que as bailarinas usam.

Nenhuma das crianças entendeu por quê todos olhavam para eles com aquelas caras de tragédia, e principalmente, por que Dona Valquíria estava ali tão cedo. Não foi necessário esperar muito. A notícia do acidente de seus pais caiu como um tijolo gigantesco sobre eles.

Tudo o que aconteceu depois foi muito rápido, não é necessário entrar em tantos detalhes de um assunto tão triste como a morte. Todos nós sabemos como dói bem lá no fundo do peito. Não se sabe bem ao certo o que acontecera, disseram que o carro caíra em uma ribanceira, capotara e que a mãe deles provavelmente morrera.

Bem, lembra que eu usei a palavra desaparecera lá trás? Pois é, a mãe deles havia desaparecido. Ninguém sabia onde estava o corpo. Daí, deduziram que como o carro caíra em um rio de correnteza muito forte, que seu corpo fora levado pelas águas, porém disseram que dariam uma busca em toda a região. Isso talvez fosse o pior. Quando você vê alguém morto é mais fácil de aceitar do que escutar que sua mãe desaparecera em um acidente. Como alguém pode desaparecer?! Provavelmente, alguém iria explicar isso mais adiante, por enquanto, era a única notícia que as crianças tinham e era dolorida demais para ficarmos aqui discutindo isso quando há tanta coisa pra contar.

Já o pai estava internado e seu estado não era nada bom. Estava em coma e não havia previsão de melhora.

Longas horas se passaram, enquanto Rafael, Marina e Hugo esperavam por notícias. Horas viraram dias e dias viraram semanas. E ninguém encontrou o corpo da mãe deles. Daí, ela foi dada como morta. Uma verdadeira tragédia.

Como sempre fizera antes quando os pais das crianças pediam, Dona Valquíria convidara as crianças para ficarem em sua casa, mas havia alguns desdobramentos que nenhum deles entendera direito, e depois de quase uma semana, uma tia surgida "só Deus sabe de onde", batera na casa de Dona Valquíria e dissera que ficaria algum tempo tomando conta deles, pois até que "tudo estivesse em ordem" e que se alguma coisa "desse errado", ela ficaria encarregada pela justiça da tutela das crianças e isso também incluía o Hugo, é claro. Porém, Dona Valquíria deixara bem claro para todo mundo que se alguém precisasse dela, ela estaria a disposição sempre, a qualquer hora do dia ou da noite. Parecia até um anjo em meio a tamanha desgraça.

Tia Monica, este era seu nome. Era uma mulher de poucas palavras, riquíssima, muito enérgica e de pouquíssima paciência, já dá para você notar que o Hugo teria que dar um jeito de "entrar nos eixos", senão acabaria em um orfanato. Era grandona, branca como um fantasma e tinha cabelos vermelhos como fogo sempre presos em um coque milimetricamente preso na nuca por grampos dourados.

Nas duas primeiras semanas tudo correra mais ou menos em ordem, isso porque quebrar a rotina que estamos acostumados é muito difícil, principalmente para o Hugo que já não obedecia muito bem as regras dos pais de Rafael e Marina, o que dirá de uma tia solteirona, cheia de manias esquisitas e que pegava em seu pé a cada dois segundos cronometrados. Era de se esperar que ao final destas duas semanas, Tia Monica e Hugo já tivessem trocado algumas palavras que não se devem dizer, principalmente porque Hugo insistia em por os pés sujos sobre as poltronas na sala o que deixava tudo com marcas pretas e a Tia Monica enlouquecida!

Tia Monica já colocara a mesa para o almoço, com a ajuda de Marina, quando Rafael e Hugo desceram do segundo andar depois de tomarem banho. Tia Monica nunca permitia que comessem antes de tomar banho, tanto no almoço quanto no jantar. Hugo dizia que iria perder a cor da pele e que provavelmente esse era o problema que fez com que a pele da tia fosse tão branca.

Sentaram-se à mesa e começaram a comer. De uma coisa eles não podiam reclamar, Tia Monica era uma cozinheira de primeira e naquele dia teria um suculento frango assado, um risoto maravilhoso com salada, e de quebra, um pudim de chocolate com calda delicioso!
- Tia... - começou Marina meio receosa.
- Sim, querida - respondeu Tia Monica servindo uma colher de risoto para Hugo.
- Tia... A senhora sabe alguma notícia de papai? - completou Marina.

Houve um momento de silêncio em que a Tia Monica acabava de servir as crianças e sentava-se ao lado de Rafael que estava muito calado naquela manhã.

Depois disso, Tia Monica olhou para cada uma das crianças e respondeu:
- Ele está melhorando, querida... Em breve estará bom, Deus sabe o que faz. Agora vamos comer, e mais tarde iremos ao hospital visitá-lo.
- Tia... - a voz de Rafael mais uma vez fugia de sua boca sem que ele quisesse. - a senhora sabe por que meus pais saíram de madrugada?

Tia Monica hesitou um pouco e disse:
- Como eu poderia, Rafael? Mas, por que você pergunta isso?
- Minha mãe foi ao meu quarto e ... E depois saiu sem dizer nada...

Rafael sentiu que todos os olhos estavam fixados nele. Parecia que cometera algum crime. Era certo que Rafael pouco falara desde o acidente, e em momento algum mostrara interesse nos motivos do acidente, ele limitara-se a perguntar por notícias do pai, nada além disso. Porém, seus pensamentos não desviavam-se da conversa que tivera com a mãe na noite em que fora a seu quarto e dera a Rafael o colar com o pingente.

Tia Monica deu uma apertadinha nos olhos e perguntou:
- Ela não disse nada? Aconteceu alguma coisa que você não está me contando?

Rafael esperava por uma pergunta mais difícil, mas aquela dava para tirar de letra, principalmente, porque a voz de sua mãe ecoava em sua cabeça " nunca, nunca mesmo, fale nada com ninguém". O difícil era saber o que poderia falar, porque "nada" tinha um sentido muito amplo na conversa, principalmente para Rafael que nada sabia além da visita da mãe e do colar.


- Ouvi o telefone tocar. - respondeu Rafael sem demonstrar insegurança.
- Alguém ligou para eles?! - interrompeu Marina.
- Quem? - completou Hugo.

Rafael olhou para o primo e depois para Tia Monica. Ela não tinha uma cara de alguém que está gostando muito do que escuta.

- Você sabe quem ligou para seus pais naquela noite? - perguntou Tia Monica com uma cara de aborrecida.
- Não... Minha mãe não disse... - respondeu Rafael.
- Nada mais? - insistiu Tia Monica levantando a sobrancelha.

Rafael sentiu o pingente do colar esquentar junto ao seu peito e o seu coração dar pulos no peito. Se aquilo se prolongasse mais, ele teria um treco!
- Não... Nada mais... É, eu só queria saber o que aconteceu, só isso - completou voltando a comer.

Tia Monica pareceu não acreditar muito na resposta, porém se ela sabia de alguma coisa, certamente não iria contar para eles. Ela olhou um pouco para as crianças enquanto comiam e finalmente disse.

- Iremos hoje a tarde ao hospital... Talvez tenhamos alguma resposta para nossas perguntas, queridos.

E foi o que aconteceu. Quando chegaram ao hospital havia um pequeno tumultuo no corredor em frente ao quarto do pai de Rafael. Havia dois homens de terno e duas mulheres muito maquiadas e arrumadas para uma visita a um paciente. Marina estranhou e deu um jeito de se aproximar para tentar ouvir o que falavam, só que Tia Monica percebeu o movimento da menina e segurou seu braço, porém Marina já escutara uma parte bem grande da conversa.

- São pessoas do trabalho de seu pai, não é assunto para crianças! - ralhou Tia Monica com um falso sorriso. - Vamos, não temos mais que uma hora e devemos nos revezar.

Não foi uma cena que alguém gostasse de ver. O pai de Rafael e Marina tinha mais tubos presos a ele do que o quadro da central de telefones de sua casa. Era tubo no nariz, na boca, nos braços e outros tantos no peito e caindo pela cama. Dormia em sono profundo, e ao fundo podia-se ouvir o barulho de seu coração batendo pelo auto-falante do aparelho próximo da cama.

Marina chorava de montão depois de cada visita ao hospital, ela adorava o pai e vê-lo naquela situação era doloroso demais. Já Hugo ficava sempre calado, já passara por aquilo tudo antes e parecia um replay daqueles bem tristes.

Rafael era quem mais suportava aquilo tudo. Ficava ali fazendo carinho nos cabelos do pai e às vezes conversava com ele como se fosse possível o pai ouvir alguma coisa.

E era só isso. Uma espera agoniante e sem certeza de nada. Na realidade, havia uma certeza, em uma hora cronometrada iriam para casa junto com a Tia Monica e tudo voltaria ao mesmo esquema de antes da visita. Nada além.

Já passava das dez horas da noite quando Rafael viu a porta de seu quarto se abrir bem devagar e dois vultos entrarem pé ante pé. Eram Hugo e Marina.

Rafael sentou-se na cama em um pulo e perguntou baixinho:
- Caracas! Querem me matar de susto?
- Xiii! - fez Marina com o dedo indicador sobre os lábios - Fala baixo... Vai acordar a tia...
- O que vocês querem? - perguntou Rafael em um tom de voz mais baixo.
- Queremos saber o que aconteceu de verdade! - disse Hugo sentando no chão em frente a cama de Rafael.

Rafael suspirou um pouco e ficou naquele dilema - "conta ou não conta?". Sua mãe dissera para não falar nada com ninguém, mas será que incluía sua irmã e seu primo? Como saber? Ela nunca mais poderia responder isso para ele.
- Conta? Não saio daqui se não contar... - insistiu Marina.
- Ouvi o telefone tocar e... - começou Rafael quase que sussurrando.
- E? - insistiu Hugo bem baixinho.
- Bem... Depois ela veio aqui e falou algumas coisas... - continuou Rafael meio inseguro.
- Algumas coisas? Que coisas, Rafael? - perguntou Marina também sentada no chão.
- Não sei se devo... Ela pediu para não falar nada e que ela estaria de volta pela manhã... - respondeu Rafael.
- Bom, sabemos que ela não volta mais... - disse Hugo muito sentido.

Tanto Rafael quanto Marina e Hugo sentiram o peso daquelas palavras. Era verdade, ela nunca mais iria voltar. Nunca mais.

Depois de alguns segundos, finalmente Rafael continuou a contar:
- Ela veio ao meu quarto, disse que iriam sair... Depois quando perguntei quem era no telefone, ela disse que era alguém precisando de ajuda... Mas eu não acreditei, ela tava com muito medo, eu sei disso.
- Medo?! Como assim? - insistiu Marina.
- O olhar dela... Não sei direito explicar... - respondeu Rafael.
- E depois, o que aconteceu? - perguntou Hugo.
- Ela... - novamente a voz de sua mãe ecoou dentro de sua cabeça "guarde isso com você... nunca, nunca mesmo, fale nada com ninguém". - eu... Eu.. - Rafael tentou responder, mas parecia que algo o estava impedindo.
- Fala, caramba... - insistiu Marina pegando no braço de Rafael.

Rafael puxou o colar do pescoço e mostrou o pingente para sua irmã e para o Hugo. O pingente emitiu um brilho alaranjado fluorescente.
- Que lindo! - deixou escapar Marina ao olhar o pingente brilhando.
- Foi a tia que deu isso a você? - perguntou Hugo se referindo a mãe de Rafael.
- Foi... E pediu que não contasse para ninguém... Caramba... - disse Rafael levantando.
- Perai... Xiii... fala baixo, senão Tia Monica vai ouvir... - pediu Marina e puxou o braço de Rafael para ele sentar novamente, só que agora no chão junto com ela e Hugo.

Rafael sentou-se e Marina pegou no colar. O pingente era lindo. Tinha a forma de uma letra "T" de cabeça para baixo, em cima havia um argola na forma de um ovo por onde passava a corrente e na base havia um par de asas abertas. E como brilhava! Note, eles estavam na penumbra, apenas a luz do luar que passava pela janela iluminava o quarto. Então como brilhava? É claro que Marina não poderia deixar de comentar isso.

- Ele brilha no escuro?? Como pode? Será que é algum tipo de tinta especial? - comentou Marina.

Porém posso garantir que aquele pequeno cérebro estava processando tudo o que ela sabia, cada informação que lera na biblioteca, cada coisa que aprendera em sala de aula que pudesse dar uma resposta para o que estava acontecendo. Depois de um silêncio em que quase era possível se ouvir o respirar das três crianças naquele quarto, Hugo falou:

- Pra que ela deu isso a você? E pra fazer o quê?
- Não sei... Disse que eu deveria guardar e jamais contar para alguém... - respondeu Rafael um pouco ressentido.
- Acho que você já contou, né? - concluiu Hugo com aquela cara de que tudo é obvio.
- No hospital havia uma das mulheres que segurava um colar parecido com esse... - comentou Marina como se pensasse em voz alta.
- Heim?! - exclamou Hugo sem entender.
- No hospital? Lembra? - insistiu Marina sussurrando - havia uma das mulheres que estavam no corredor que segurava um colar parecido com este. Tenho certeza!
- Como pode ser?! - perguntou Rafael bem baixinho.
- Não vi nada... - completou Hugo - Tia Monica não deixou a gente nem chegar perto delas? Como você viu isso tudo?
- Eu cheguei bem perto... Elas falavam de um encontro, alguma coisa assim, um galpão... Sexta-feira... O homem grisalho disse que o acidente dos nossos pais era muito suspeito e que ele estava averiguando. Guardei bem a palavra "averiguando", porque nunca ouvi antes. Vi no dicionário e quer dizer verificando. Não deu pra ouvir tudo porque Tia Monica puxou meu braço e me deu uma bronca. - completou Marina.
- E por que estariam averiguando o acidente dos nossos pais? - perguntou Rafael.
- Não sei, mas ele disse que o acidente era suspeito. Isso é que é muito estranho. - respondeu Marina.
- O que isso tem o que haver com o colar? - perguntou Rafael sem entender.
- Ora, Rafael, tem tudo o que ver! - respondeu Marina como se isso fosse a coisa mais evidente - Mamãe deu o colar pra você esconder, não vê? Ela sabia que alguma coisa ruim ia acontecer... Com certeza...
- Acho que você está misturando as coisas... - insistiu Hugo.
- Não acho que esteja misturando nada. Ouvi também que iriam para um encontro, sei lá, num galpão. - completou Marina.
- E o que há demais nisso? - perguntou Rafael - E o colar o que tem demais para que ela quisesse que eu escondesse?
- Não sei, mas vou descobrir. - respondeu Marina - escuta, você não mostra pra ninguém tá, ok? A gente se fala depois. Vamos dormir antes que a Tia Monica acorde.

E foi isso que aconteceu. Não dava pra se chegar a nenhuma conclusão. Colares que brilham no escuro. Segredos muito secretos. Pessoas falando sobre assuntos que ninguém entendia direito. Talvez ainda houvesse mais coisas esquisitas para acontecer.

E certamente aconteceram.

continua....

7th-Nov-2007 10:38 am - CAP 1 do Livro - A CAIXA DE MADREPÉROLAS



 A Perda

Esta história começa naquele ano em que todos achavam que o mundo ia acabar. Diziam que existia uma tal de previsão para a virada do século. Bom, como você pode ver, o século mudou e o mundo não acabou. Pelo menos até hoje ou pelo menos para nós.

Tudo começou numa tarde muito chuvosa, e acredite, chovia pra caramba. Raios cortavam o céu negro como carvão e os trovões eram tão altos que faziam a gente se encolher. Nada melhor para descrever o início triste de nossa história.

Vila Velha era uma pequena cidade do interior, com uma grande praça onde - como em toda a cidade do interior - havia uma igreja. No centro da cidade existia a estação de trem de onde saía uma maria-fumaça do início do século que fora reformada pelo último prefeito para trazer turistas para a cidade. Se bem que isso não dera muito certo, pois o número de pessoas que iam a Vila Velha era bastante reduzido mesmo com a nova atração. O trem partia de Vila velha e fazia um trajeto entre três outras pequenas cidades bem próximas em todos os finais de semana.

Há poucos quilômetros do centro havia uma grande mineradora que extraia bauxita, onde quase todos trabalhavam quando não eram trabalhadores nas fazendas da região. Além de uma reserva florestal com uma mata onde ainda podia-se ver espécies raríssimas de árvores como o Jequitibá, o Mogno e outras mais que nem sei o nome. Diziam que até o pau-brasil havia por ali.

Naquela hora do dia, muita gente estava assistindo a missa, bem como os personagens de nossa história.

Bem lá no fundo, quase no último banco, estavam sentados além de Rafael, Marina, a mãe deles, Dona Amanda e o pai, Seu Marcos. Não posso esquecer do primo Hugo.

A propósito, o Seu Marcos trabalhava na mineradora. Ele era gerente financeiro e controlava também o setor administrativo. Era um trabalho que ele adorava fazer. Era um homem de respeito, como todos diziam na cidade. Porém alguns achavam que ele daria um ótimo peão de boiadeiro, porque era muito forte, alto e moreno. Talvez alguma coisa de sua descendência sulista tivesse deixado bem marcadas as suas características. Um bom gaúcho era um bom peão para sua boiada!

Rafael se parecia muito com o pai. Era um menino bem moreno, de cabelos pretos cortados rente à cabeça. E um corpo bem crescido para um garoto de 13 anos. Ele dizia que ninguém podia com ele, com isso, adorava bancar o fortão com os outros, apesar de que nem sempre ganhava a parada! Acima de tudo vivia no mundo das nuvens envolvido com histórias de dragões mágicos, elfos, bruxos e outras coisas mais.

Já Marina era miúda como sua mãe, na realidade, muitos diziam que era a cópia em modelo reduzido. A diferença era só idade. Marina já estava com 12 anos e ainda costumava trazer os longos cabelos pretos, levemente cacheados, presos em fitas. "Uma fita diferente para cada ocasião", sempre dizia. Muito embora fosse irmã de Rafael, seus olhos eram esverdeados como os de sua mãe e a pele bem mais clara do que a dele. E como era inteligente! Sabia tudo sobre quase todas as coisas e normalmente passava horas na biblioteca do colégio. E na matemática! Nossa, chegava a ser um absurdo como ela era capaz de fazer qualquer operação sem um pingo só de dificuldade! E acima de tudo, tinha assunto extremamente variado para longas conversas com qualquer pessoa, e nunca perdia qualquer disputa onde fosse necessário conhecimento.

E finalmente, vou falar sobre o Hugo. Diria que ele era um verdadeiro para-raio para encrencas. Onde havia uma, era certo do Hugo estar envolvido. Tinha a mesma idade de Rafael, porém parecia infinitamente mais novo. Hugo era magro, seu cabelo cor de mel jamais tinha um penteado definido, e principalmente, era um carinha daqueles que reclamam de tudo, são metidos a saber de tudo, se metem em tudo e se acham tudo de tudo - o que é mais chato. Não entendo o por quê do Rafael gostar tanto de Hugo. Porém, eram amigos pra tudo também! Qualquer coisa que acontecesse com um, estava diretamente relacionado com o outro, não interessando onde começou. Desde que os pais de Hugo morreram em um acidente de carro há alguns anos atrás, Hugo vivia com os pais de Rafael.

Você já pode concluir que foi aí que começou o problema.

Depois da missa, havia um grande tumultuo na entrada da igreja. Chovia demais para sair e muitas pessoas permaneciam ali, espreitando o céu na possibilidade de que o dilúvio desse uma trégua e que pudessem voltar para casa preferencialmente, secos. Se bem que, isso seria quase impossível, pois há horas que o céu despencava em cima de todo mundo!

Hugo, que estava parado logo atrás de Rafael, disse:
- Hum... Sei não... - resmungou - acho que só saímos daqui a nado...
- Espera um pouco que papai foi pegar o carro lá trás e já volta - comentou Marina sem olhar para Hugo.
- A, tá. - concordou Hugo fazendo uma careta. - Por um acaso você disse... barco?

Marina virou-se e dando um longo suspiro disse:
- Não sei por que reclama tanto, Hugo. Era só dizer que não estava afim de vir hoje e ficava em casa sem problema algum! Mamãe fica chateada quando você fica com esta tromba! - completou Marina virando-se.

Hugo olhou para Rafael e fez uma careta para a nuca de Marina. Rafael deu uma risada no exato momento que um raio correu pelo céu e um trovão fez o chão estremecer.

Aquilo parecia filme de terror!

Depois de alguns minutos, Seu Marcos chegava com sua Pickup e todos seguiam para casa. Certamente, era o único tipo de carro que seria suficientemente alto para passar pelas poças e mais poças que já se formavam em todas as ruas no caminho de casa.

A chuva que caíra durante o dia, continuou a noite toda e a madrugada também. Talvez fosse um aviso de que alguma coisa muito ruim iria acontecer.

E realmente aconteceu.

Passava das três horas da manhã quando o telefone tocou estridente na sala. Primeiro, Rafael achou que estivesse sonhando, depois acordou com o último toque do telefone, e quando a porta de seu quarto se abriu e sua mãe entrou bem de mansinho, Rafael deu um pulo na cama, e foi logo dizendo:
- Que foi, mãe?!
- Eu e seu pai precisamos sair com urgência. Espero que estejamos aqui pela manhã...- respondeu ela com um olhar que dizia exatamente o contrário.

Rafael olhou para o rosto de sua mãe e era impossível não notar que ela estava com medo. O que seria aquilo? Certamente, havia algo de muito errado acontecendo.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou Rafael apreensivo.

Depois de alguns segundos que pareceram uma eternidade, ela respondeu:
- Não, meu filho. Não se preocupe... Pela manhã estaremos aqui, tá? Avisa a sua irmã... - depois disso deu um beijo na testa de Rafael.
- Mãe... - chamou Rafael - Quem foi que ligou? - aquela pergunta saiu de sua boca antes que ele pudesse impedir.

Houve outro momento em que Rafael sentiu um frio no estômago, aquele bem característico de quem pressente que uma tragédia está prestes a acontecer. Olhou para a mãe tentando identificar o que poderia estar acontecendo, talvez algum sinal, mas ela somente demonstrava medo. Por que estaria com medo?

Depois de uma pausa bem curta, finalmente ela respondeu:
- Era alguém precisando de ajuda... Nada não.. - deu um longo suspiro e tirando um colar de seu pescoço, disse - Tome, guarde isso com você e me entregue quando voltar... mas nunca, nunca mesmo, fale nada com ninguém sobre o que conversamos hoje... este será nosso segredo, meu querido.

Ela colocou o colar no pescoço de Rafael, deu um beijo longo em sua testa e se levantou tão rápido que Rafael não teve tempo de perguntar mais nada. Rafael olhou para o colar, e depois para a porta se fechando bem devagar. Um grande nó se formou em sua garganta, era como se ele estivesse adivinhando o que poderia acontecer...

Os únicos sons que se seguiram foram os trovões que ainda ecoavam aqui e ali, o barulho de porta de carro batendo e depois o barulho do motor do carro partindo. Depois só o barulho da chuva que ainda caía forte. Rafael ficou um tempo tentando imaginar que situação levaria seus pais a saírem de madrugada em meio a uma tempestade. Somente um motivo muito forte e grave. Era isso que Rafael temia, porém não podia imaginar o que pudesse ser. Ficou um tempo escutando a chuva e os trovões até que voltou a dormir.

Estes sons nunca mais saíram dos pensamentos de Rafael.

Ninguém sabia explicar direito o que havia acontecido, às vezes os adultos complicam muito, ou quem sabe, tentam amenizar as coisas e complicam mais ainda. Porém, todos nós sabemos como é difícil dizer a um filho que um de seus pais havia morrido, ou melhor, desaparecido de repente.

Uma hora você está com eles, logo depois um deles não está mais lá, e o que é pior, que nunca mais você irá vê-lo.

Se houvesse uma cor para pintar o céu daquele dia, com certeza seria o preto.

.... continua

1st-Nov-2007 10:27 am - Parte do Livro "A Casa da Bruxa" - Infanto Juvenil
 Bom, voltando a nossa história, o dia estava lindo, azul pra caramba, e o sol estava brilhando como nunca, e é claro que uma grande parte das pessoas que moravam em Vila Velha resolveu ir ao único lugar onde se poderia curtir de montão um dia como aquele: o parque que ficava dentro da Reserva Florestal, e isso também incluía os personagens de nossa história, e onde já se notava um pequeno tumultuo à margem do lago.
 ......

 

O motivo pelo qual as pessoas se acotovelavam junto à margem do lago era o aparecimento do tal menino que fora seqüestrado na rua do colégio há alguns anos atrás. Diziam que quem seqüestrara o menino fora uma bruxa que morava numa casa na esquina da rua do colégio onde o menino estudava.

Você deve estar achando que sou meio louca, porém era isso mesmo, um garoto seqüestrado por uma bruxa apareceu dentro do lago da Reserva Florestal depois de quase cinco anos sumido.

Vou explicar melhor a história. Exatamente na rua de um colégio havia uma casa velha, abandonada, toda esquisita e que tinha o melhor pé de carambolas de toda Vila Velha. Pode ser a mais pura coincidência, porém, as melhores carambolas, as mais amarelinhas e as mais suculentas resolveram nascer todas naquela árvore que ficava justamente dentro do terreno da casa abandonada. Se bem que a casa não era tão abandonada assim.

......

Não preciso nem dizer que todas as crianças do colégio passavam diariamente pela calçada em frente a casa e puxavam as suculentas carambolas que davam um tremendo mole do lado de fora do grande muro que cercava a casa.

Claro que com o tempo, as carambolas do lado de fora do muro foram acabando, as crianças continuavam passando e queriam as carambolas. Você já pode imaginar no que isso deu. Depois que todas as carambolas de fácil acesso acabaram, só restava subir no muro e depois na árvore.

Foi o que aconteceu. Um belo dia, o tal menino resolveu subir no muro, depois subiu na árvore e cabum! O pobre coitado caiu do lado de dentro da casa.

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Uns diziam que uma mulher toda estranha, com roupas estranhas, nariz estranho, cabelo mais estranho e uma vassoura também estranha derrubou o menino da árvore e sumiu com ele. Diziam que os gritos dele foram ouvidos até quase um quarteirão da casa abandonada.

Com o passar do tempo disseram que a mulher toda estranha, com roupas estranhas, nariz estranho, cabelo mais estranho e uma vassoura também estranha comera o menino e levantara vôo na vassoura estranha com uma enorme barriga.

Depois de mais um tempo ainda, disseram que a mulher toda estranha era uma bruxa que comia criancinhas e que a árvore era uma armadilha para pegar criancinhas, com isso no final de pouco menos de um ano, todo mundo começou a deixar de passar pela frente da casa abandonada, e depois de mais um tempo, todos diziam que a tal mulher estranha sumira, junto com sua vassoura estranha e nunca mais ninguém vira ou ouvira falar dela, do menino e nem da vassoura.

A polícia estivera na casa depois que o menino sumira e não encontrara absolutamente nada. A casa parecia que nunca fora habitada por ninguém de tão destruída e suja que estava.

Como às únicas testemunhas do caso eram as crianças que estavam na hora que o menino subira no muro, e como as histórias eram muito confusas e diferentes, a polícia deixara o caso em aberto. Afinal, aquela história de uma bruxa que comera o menino e fugira na vassoura estranha não dava pra acreditar mesmo fazendo um grande esforço.

Depois de um certo tempo, fotos do menino começaram a se espalhar pela cidade. Estavam em todos os lugares, nos postos, nas sacolas dos supermercados e até nas caixas de leite. Os pais do menino esperavam que um dia, alguém o visse e pudesse dar algum tipo de informação.

Com o tempo uma grande quantidade de gente chegou a conclusão que aquela história da bruxa poderia ser verdade, e que a tal bruxa realmente comera o menino e fugira em sua vassoura estranha.

 Para todos, aquela história acabara, quando o tal menino seqüestrado, aparecera saudável no lago do parque anos depois e ponto final.

O que ninguém realmente sabia era que a tal casa não estava tão abandonada e que agora existia uma mulher toda estranha, com roupas estranhas, nariz estranho, cabelo mais estranho e uma vassoura também estranha morando na casa da rua do colégio.

Talvez esse tivesse sido o grande erro nesta história, disso você terá absoluta certeza depois que acabar de contar tudo o que aconteceu depois daquele dia no parque.

Reggie MoonLight

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