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Reggie MoonLight
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13th-Nov-2007 12:26 pm - Conto A SOMBRA - publicado no Jornal do Economista



E o andar chegou. Cadê as luzes? Parecia filme de terror com seus passos ecoando na garagem. Havia mais passos que os seus ! Virou-se e não havia ninguém! Entrou no carro o mais rápido que pôde. Seu coração pulsava forte e sua respiração era ofegante. Virou a chave. Nada! O carro não ligava de jeito nenhum! 

Começou a ficar com medo. Abriu a porta do carro, pôs o pé no chão, uma mão agarrou meu tornozelo! Carla gritou! Lutou muito para se livrar daquela mão que a puxava para baixo do carro. Finalmente escutou o elevador parando em seu andar. Estava livre! Carla saiu correndo. Era Raul. Ela foi logo dizendo: "Há um tarado embaixo de meu carro!" 

Pacientemente o Raul foi até o carro, abaixou-se e olhou. Não havia nada. Entrou no carro, tentou ligar. É, não pega mesmo! Uma carona? Foram para o carro de Raul. Não pega! Tentou de novo e nada. Quando Raul colocou o pé no chão, uma mão o puxou para baixo do carro. Carla correu para o outro lado e puxou Raul com todas as forças que tinha. Conseguiu solta-lo! 

Correram e àquela sombra sinistra parecia segui-los pelo chão. O elevador! Ao abrir a porta, uma senhora e uma menina. Segura o elevador ! Mas já havia fechado as portas. É melhor ficarmos aqui na luz...

O elevador chegou e os quatro desceram. Não tinham explicação para àquilo. Ainda tentaram convencer aquela senhora do perigo, bem como os frentistas, mas parecia conversa de maluco.

Por volta das dez horas, o elevador parou no quinto andar daquela garagem. Um casal muito animado desceu. O rapaz tentou ligar o carro duas vezes. Incrível, não pegava! Abriu a porta, pôs o pé no chão ....

Reggie MoonLight

3rd-Nov-2007 11:22 am - PASSOS NA NOITE - Parte do Livro "Sombras da Noite"




Era uma noite comum. Nada especial. Era igual a todas as noites que passavam por ele sentado naquela esquina, dia após dia. Um eterno continuar sem final previsível. Uma rotina inquebrantável. Pelo menos até aquela noite.

Orlando dormia encostado, como sempre, entre folhas de papelão de uma caixa qualquer que fora jogada fora. Tal qual ele próprio. O sono teimava em vir e ir, numa mesma constância. Como tudo em sua vida. Estava acostumado com o vai e vem das pessoas naquela rua. Podia reconhecer passos e distinguí-los entre tantos outros. Porém, naquela noite em especial, um ruído diferente o trouxe a realidade do mundo vazio de seus sonhos.

Eram passos apressados que ecoavam pela rua. Parecia ser uma mulher de sapatos altos. Talvez estivesse com medo da noite, como todas as outras.  Havia alguém atrás dela. Passos também acelerados em um sincronismo abstrato, ecoando pelo silêncio da noite. 

Orlando encolheu-se o mais que pôde e fingiu que dormia. Porém, seus ouvidos tudo percebiam. Até o respirar ofegante de quem corria atrás daquela indefesa mulher.

Talvez fosse uma jovem, muito linda e solitária, que chegava atrasada de seu trabalho ou colégio. Talvez um papo mais prolongado com um amigo a tivesse feito atrasar e não pegar o ônibus mais cedo.

A mulher se aproximava de Orlando. Ele podia sentir aquele respirar ofegante provocado pelo exercício forçado. Existia um espectro de medo que emanava daquela criatura indefesa, a mercê de seu algoz que a perseguia tão de perto.

Orlando estava angustiado. Sentia seu coração apertado dentro do peito. Já havia se esquecido de como estava embriagado. Talvez o sentimento de incapacidade de defesa ou o medo do que não pudesse evitar. Seu desespero aumentava a medida que os passos chegavam. E os passos vinham, cada vez mais rápidos e próximos. Cada vez mais próximos de si. Seu coração pulava dentro do seu peito em um compasso sincronizado com o eco daqueles passos tão apressados pela rua. Do respirar ofegante. Eram muitos passos enchendo a noite. Seria forçado a ser testemunha de algo abissal prestes a acontecer.

De repente, um grande estrondo explodiu em sua frente. Haviam jogado alguma coisa próximo a ele. Tinha tanto medo que mal podia abrir os olhos. Seria o corpo da jovem que corria apavorada pela rua?

O silêncio encheu o espaço e o tempo, até que a única coisa que ouvia eram as batidas de seu prórpio coração.

- Ei, moço! - aquela voz era doce.

Orlando abriu os olhos devagar e levantou um dos lados do papelão que o cobria. Seu medo foi absorvido pela linda face sorridente que olhava para ele. Era uma mulher pequena em um macacão que daria pelo menos duas dela dentro. Estava ofegante e trazia uma caneca na mão.

- Quer uma sopa? - perguntou, esticando a caneca mais próxima ao pequeno caldeirão fumegante, onde um homem velho encheu-a com uma concha. - Vamos, tome. Temos muitos ainda para visitar. Deus te abençoe!

Disse e se foi. Nos mesmos passos acelerados.


Reggie MoonLight

31st-Oct-2007 09:57 pm - O Espírito - Parte do Livro de Contos "Sombras da Noite"

Aquele dia parecia sinistro. Algo no ar dava a um sensação de peso no respirar. Amélia chegou em casa muito cansada. O caminho do trabalho para casa havia sido muito estressante. Talvez pudesse dormir cedo naquele dia.

Destrancou todas as fechaduras da porta - cerca de três - e, finalmente pôde entrar em seu apartamento recém-alugado. Tirou os sapatos. Entrou descalça na sala. Tirou o relógio e as jóias, e as colocou sobre a prateleira da estante.

Por um instante, pôde vislumbrar um movimento no espelho. Acendeu as luzes da sala e viu aquela imagem de um homem muito bonito no espelho. Assustada olhou em volta. Não havia nínguem. Só a imagem no espelho!

Aquele homem sorriu e começou a andar em direção à imagem de Amélia refletida no espelho.

- Meu Deus! O que é isso?! - exclamou Amélia tentando se afastar daquele homem no espelho, o que parecia impossível, pois o espelho cobria toda a parede da sala.

O homem, louríssimo e muito bonito, continuou andando bem devagar e abraçou a imagem de Amélia no espelho. Amélia gritou, e desmaiou.

Quando acordou, ao levantar-se do chão, lá estava ele abraçado com ela. Atrás dela. Acariciando-a!

Amélia correu para o interruptor e desligou as luzes. Começou a chorar. O que seria aquilo?

Saiu correndo para o quarto e em todos os espelhos por onde passava, lá estava ele sorrindo. Parecia estar em toda a casa, e estava abraçado com ela.

Amélia entrou no quarto, pegou todos os lençóis que pôde e começou a cobrir os espelhos, enquanto apagava as luzes da casa. Depois ligou para uma amiga.

- Alô? - perguntou Lúcia ao atender.
- Lúcia, é você? - disse Amélia.
- Oi, querida. O que foi? Esqueceu alguma coisa no escritório? - disse Lúcia.
- Eu... Eu não sei nem como contar... - disse Amélia chorando.
- Você está me assustando. O que foi?
- Entrei em casa e ....  ví um homem no espelho... depois ele entrou em mim... - completou Amélia.
- O quê?!! Ele atacou você? Bateu em você? - perguntou Lúcia espantada.
- Ele é um espírito... - respondeu Amélia com a voz cortada por soluços.
- Você está bem Amélia? Que história é essa de espírito?
- Ele aparece nos espelhos, em todos os espelhos, Meu Deus! Não sei o que fazer. Estou no escuro. Ele é um homem bonito e está abraçando-me. Parece loucura, mas é verdade. Não sei o que fazer, estou desesperada! - explicou Amélia.
- Calma, querida. Você quer ficar aqui em casa  hoje?
- Não, ele pode pegar você também - disse Amélia.
- Bem, eu conheço uma vidente muito boa, que também joga carta. Marca uma hora com ela e escuta o que ela tem a dizer sobre isso. Você quer o número? - disse Lúcia depois de uma curta pausa.
- Claro, faço qualquer coisa...
- Certo. Um momento (barulho de folhas virando). Este é o número, o nome dela é Dona Marta.
- Obrigada, querida. Vou marcar agora uma hora com ela, senão enlouqueço! - exclamou Amélia um pouco aliviada.
- Calma. Não vá fazer nenhuma besteira. Lembre-se, se ele realmente está aí, está morto e você está viva. Ok? Qualquer coisa liga, eu estarei em casa. Um beijo.
- Obrigado. Um beijo - despediu-se Amélia.

Amélia imediatamente ligou para a vidente marcando uma hora logo pela manhã.

................

Aquela sala tinha um cheiro forte de môfo. Talvez fosse o carpete. Amélia não gostava de tapetes. Eles costumavam reter muita sujeira. E sujeira provoca muita doença. Mas era necessário que estivesse ali. Talvez aquela mulher pudesse resolver o problema com o espírito.

- Srta. Amélia, por favor, entre - disse a vidente assim que abriu a porta.

Na sala havia uma mesa redonda, coberta com uma toalha vermelha. A vidente era mal-vestida.  E havia um espelho atrás da cadeira onde Amélia ia sentar. Amélia não queria ver o espelho.

- Sente-se, por favor - pediu a vidente.

Amélia sentou-se um pouco relutante, mas era necessário. A vidente começou a embaralhar as cartas, dividiu-as em três pequenos montes e as enfileirou sobre a mesa. Leu o primeiro monte, era o passado de Amélia. Incrível, ela acertou quase tudo! Amélia permanecia calada, apenas ouvindo.

- Existe uma presença em seu presente. Algo há muito perdido, alguém em busca de outro alguém - disse a vidente olhando para as cartas e para o rosto de Amélia.
- O que eu faço para me livrar dele? - perguntou Amélia.
- Você deve seguir os seguintes passos. Primeiro, tome um banho com creolina, a lata toda, da cabeça aos pés... - foi interrompida por Amélia.
- Creolina?! Isso vai me matar e não ao espírito ! - exclamou perplexa Amélia.
- Você quer realmente que ele vá embora? - perguntou seriamente a vidente.
- Claro, continue. Banho de creolina...
- Depois, acenda uma vela de sete dias  e fique sem dormir por 24 horas. Na noite do segundo dia, ele terá ido embora. São cento e cinquenta reais - completou a vidente.

Amélia pagou e saiu. Ainda pôde ver aquele homem rindo dela no espelho. Iria cumprir o que a vidente falara. Custasse o que custasse. Passou no supermercado, comprou a creolina da melhor marca e a vela. Depois passou em uma farmácia e comprou um estimulante, afinal, ficar vinte e quatro horas sem dormir seria uma barra. E finalmente foi para casa.

Entrou em seu apartamento, seguindo todo o ritual que costumava fazer. As fechaduras, os sapatos, o relógio e as jóias. Porém não acendeu as luzes. E foi tomar banho.

Foram quase seis horas de banho para usar toda a lata de creolina. Vestiu o roupão e foi para seu quarto. Aquelas vinte e quatro horas pareceram uma eternidade. Leu, estudou, usou o microcomputador, jogou videogame e assistiu televisão. Finalmente chegou o final daquele ritual macabro.

Saiu do quarto por volta das oito horas da noite e foi até a sala. Acendeu as luzes e tirou o lençol que cobria parte do espelho. Olhou, não viu aquele homem. Tirou a outra metade do lençol e lá estava ele, sentado no sofá rindo para ela.

Novamente começou a andar em direção à Amélia. E a abraçou. Amélia estava em choque, tentou correr até a varanda, e se apoiou no peitoril. Parou por um momento, tinha que acabar com aquilo. Subiu no peitoril, ainda pôde ver aquele homem olhando para ela no espelho. Soltou as mãos. Perdeu-se no vazio. Depois só o silêncio. Amélia estava morta.
..............
A detetive responsável pelo caso chegou ao apartamento de Amélia por volta de nove horas da noite. Não havia muito o que fazer. Talvez aquela mulher estivesse louca. Havia indícios disso por toda a parte. Espelhos cobertos, creolina no corpo e no banheiro, vela e outras coisas mais. Era um caso de fácil solução. Dispensou os guardas e os peritos. Ficou sozinha. Olhou para o espelho. Havia um homem, muito bonito, sorria para ela....

Reggie MoonLight

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